quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O eu não existe só, ele (o eu) não é, ele necessita da circunstância para ser.



As circunstâncias e a curiosa história de Kaspar Hauser:



Ortega y Gasset, vendo-se envolto numa atmosfera conturbada em sua época, buscou compreender sua situação concreta no contexto próprio em que se encontrava. Para isso caminhou pelo viés do historicismo para assimilar de modo mais pleno a Espanha naquele exato momento histórico, isto é, em sua circunstância. Resumidamente, o conceito de circunstância é a realidade das coisas e de mim na vida, na minha vida. A realidade das coisas ou a do eu dá-se na vida, como um momento dela. Assim, o momento único – que contém a minha circunstância – é algo somente meu, relaciona-se somente comigo na forma indivisível com que se apresenta, e alimenta em mim a necessidades de ação. Ninguém é alheio à circunstância, não há jeito, modo, maneira de se livrar dela, não há como estar fora de uma dada circunstância. Ela se mostra a nós seguindo o ritmo histórico de progressão dos fatos. Uma vez que “eu sou eu e minha circunstância”,  me vejo impossibilitado de agir sem uma reflexão, por mais pequena que seja, e me coloco a necessidade de tomar decisões. A vida, a  minha vida, é  uma sucessão de fatos amoldados que me coloca a par de todo o contexto a que me submeto. O eu não existe só, ele (o eu) não é, ele necessita da circunstância para ser. Temos de ser e, para ser, o que nos ocorre é adentrar em nossa circunstância para, a partir dela, abraçarmos um percurso próprio e que nos leve à realização pessoal. Por nossa circunstância, nos tornamos seres solitários, vivemos uma vida individual e distinta de outro. Vivemos nossa circunstância única, que não se repete e com isso, somos levados a  nos diferenciar de tudo. Diante de minha circunstância, me proponho, por força do desenrolar histórico, a me mover e, assim, neste movimento, me construo, me faço. Uma simples análise e reflexão sobre o que é circunstância e o quanto ela determina o nosso quadro de possibilidades, torna curioso e desafiador o caso do menino Kaspar Hauser. Ele apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, em maio de 1828, era um estranho, ninguém sabia quem era ou de onde vinha, trazia uma carta de apresentação anônima para o capitão da cavalaria local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como fora seu pai. Ficou-se sabendo mais tarde (quando K. Hauser aprendeu a falar) que uma pessoa, que ele não conheceu, tratava dele enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto dormia. Foi acolhido na casa de um professor que se responsabilizou  em iniciar sua socialização. Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam, e não sabia andar direito, parecia um menino dentro de um corpo adolescente. Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um "garoto selvagem", apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades como conseguir enxergar muito longe e no escuro, além de gostar de animais, principalmente dos pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa. Kaspar Hauser tornou-se uma espécie de atração por sua história de vida diferente. Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo.  Muitas foram as hipóteses levantadas para explicar o fato de Kaspar Hauser ter sido criado no isolamento. Dentre essas hipóteses há duas explicações principais: a primeira diz que ele seria um mendigo espertalhão e que fingia toda a história para atrair a simpatia alheia, a segunda explicação, porém trabalha com a hipótese de que ele seria neto de Napoleão Bonaparte. Hauser foi criado no isolamento e privado de educação, condicionamento e repressão, sendo exatamente esse processo de  integração o escolhido para educá-lo, e o instrumento principal desse processo era  a linguagem, em sua socialização, Hauser teria que aprender aquilo o qual nunca desenvolveu, isto é, a representação de si e do mundo. O século XIX, época em que Kaspar Hauser viveu, foi um período marcado pela perspectiva positivista, evolucionista e desenvolvimentista. A visão de que havia um modelo de civilização e de desenvolvimento a ser alcançado, tanto pelos homens, como pelas sociedades, estava em seu auge. Todos aqueles que não correspondiam ao protótipo do homem "civilizado" eram classificados como primitivos, atrasados e deveriam ser "ajudados" a alcançar graus mais avançados na escala de desenvolvimento e evolução. É dentro dessa visão de mundo que  Hauser vai ser socializado. Ao chegar em Nuremberg ele sabia apenas repetir, com dificuldade, a mesma frase ("quero ser cavaleiro como meu pai"). As pessoas o viam com estranheza, tinha vivido sozinho, solitário no vazio de sua cela, e esta era sua circunstância. Não tinha muitas opções de escolha e, principalmente, não tinha aprendido a definir o que era escolher ou mesmo que lhe havia esta possibilidade, ele não conhecia a capacidade de optar e opnar, não era consciente de sua liberdade, noções básicas que se aprendem com os primeiros contatos com nossos pais, e imitando-os, num primeiro instante, aprendemos a fazer as nossas escolhas, aprendemos a reconhecer e refletir nossa circunstância. Ele não reconhecia o próprio passado,  porque jamais lhe fora ensinado ou teve exemplos a seguir, sendo, justamente, esta rememoração que se  faz essencial para nossa ação, porque nosso passado é indicador  dos nossos possíveis caminhos já que vem formando, uma após outra, nossa circunstância. Hauser não concebia que lendo nosso passado vamos ao encontro de nós mesmo, retomamos as relações anteriores com a circunstância passada e fazemos as escolhas pautadas neste avivamento do  presente. Todas as relações que construíram nossa circunstância são levadas em conta quando vamos agir em nossa liberdade. Na lápide de Kaspar Hauser, no cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição que diz: "Hic occultus occultu uccisus est." Quer dizer: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido." 


Referências Bibliográficas:

Blikstein, I. (1983). Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade. São Paulo: Cultrix / EDUSP.      

Vygotsky, L. S., & Luria, A. R. (1996). Estudos sobre a história do comportamento: O macaco, o primitivo e a criança. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

Site de referência:
http://www.scielo.br
http://www.consciencia.org/o-circunstancialismo-em-ortega-y-gasset
filme "O enigma de Kaspar Hauser" - Herzog, Werner (Alemanha, 1974)


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O homem tem que salvar a si mesmo.



"A vida é um contínuo fazer, porque nada é dado de fato, temos que nos fazer. A vida é um problema que temos de resolver."Ortega y Gasset.

Raciovitalismo:


José Ortega y Gasset iniciou sua intelectualidade entre os idealistas neokantianos da escola de Marburgo, na
 Alemanha. Foi então que ele se descontentou com a configuração do idealismo que propunha uma consciência vazia, sem nenhuma vivência ou experiência para almejar algo mais dinâmico com a história. Em seguida, se indispôs com as teorias que validavam a universalidade da ciência, sobretudo com os positivistas. Nesta fase, o filósofo se perguntou o que é que assegura a objetividade do pensamento? A partir daí, ele chega à fenomenologia de Edmund Husserl,  que explicava que a ação da consciência consistia num conhecimento direto ao objeto. Ainda assim, Ortega sentiu a ausência de vivência, em seu sentido concreto e, finalmente, se descontenta com o método fenomenológico. Mas, encontra em Wilhelm Dilthey a possibilidade de relacionar as estruturas históricas e as estruturas humanas sem elaborar esquemas formais, mas era preciso descobrir qual categoria seria possível para equalizar tais estruturas. Assim, a distinção de Ortega surge como uma reação ao idealismo, ao positivismo e à fenomenologia. Para ele, tais correntes filosóficas construíram fórmulas sobre a verdade numa consciência vazia de experiência; reduziram o conhecimento às perspectivas subjetivas relativizando a verdade; e valorizaram o tecnicismo. Todas estas correntes filosóficas já não sintonizavam com os fatos históricos do século XX vividos pelas guerras, totalitarismos e a massificação da sociedade. Sob a influência do pragmatismo anglo-americano, que incentivava a realização de um projeto, Ortega admite a possibilidade de aliar concretamente a história e o homem. E esta interseção seria possível se essa categoria fosse a vida, e para ele a vida é uma manifestação radical,  isso não quer dizer apenas algo único e extremo. O termo “radical” significa as instâncias que ligam as coisas, os fatos da vida em suas variadas circunstâncias. Para ele, a vida é uma categoria que funde a noção com a atividade na realidade. E realidade, para Ortega, é o hábito da mente em se sincronizar com os fatos históricos Então, a esta sincronia entre pensar em conjunto com os fatos históricos se chama Raciovitalismo ou Razão Vital. Ao denominar como raciovitalismo, Ortega explicou que não desejava se deixar confundir com os racionalistas e nem com os vitalistas. Para ele, o racionalismo é a busca de um método para postular a verdade, pela consciência simples; o vitalismo é a submissão às leis orgânicas e instintivas do corpo biológico. Então, o seu raciovitalismo não pode pretender copiar o racionalismo e nem se reduzir ao vitalismo. Para se diferir, o filósofo explica que o raciovitalismo é o uso da razão para investigar algum componente que seja estranho a história e à vida, para compreendê-lo. E a vida é histórica. Ao compreender a vida como histórica, ele nos dá a dimensão da cultura e da civilização como meios que fornecem os problemas e os fundamentos filosóficos que devem ser pensados. Na prática, Ortega constrói uma moderação nos campos teóricos e sente que este era o compromisso que a Filosofia tinha com a sociedade e com a História. O raciovitalismo não usa categorias como: eu, homem e existência. Para Ortega, nenhuma destas categorias exprime o indivíduo concreto. O sentido do raciovitalismo é compreender as circunstâncias e permitir que haja escolhas do que se quer fazer de forma concreta e não se lamentar. A originalidade de Ortega é que ele não caracteriza a vida pela irracionalidade, nem pela racionalidade e também não encontra alternativas subjetivas e nem simplesmente objetivas como era corrente por seus contemporâneos. O sentido que ele postula sua filosofia é em buscar um pensamento para viver, e não uma vida para pensar: "A teoria do conhecimento é parte da vida. No entanto, quero ser um meio termo entre o racionalismo e o vitalismo, ou seja, entre Kant e Nietzsche."  O fato não pode ser separado do ser humano, a vida humana é um projeto no sentido de que o homem tem de criar-se, de inventar-se. O homem não é senão um fato contínuo, em fazer e refazer, projetado para o futuro. 



Referências bibliográficas:
SAVIGNANO, Armando.  José Ortega y Gasset. Cristianismo secularizado.  In PENZO, 
Giorgio & GIBELLINI, Rosino. Deus na filosofia do século XX. São Paulo: Loyola, 1998. 
VATTIMO, Gianni. A sociedade transparente. Lisboa: Relógio D’água, 1992.

Site de referência:
http://html.rincondelvago.com/raciovitalismo.html




domingo, 22 de janeiro de 2012

"Se ensinares, ensina ao mesmo tempo a duvidar daquilo que estás a ensinar." Ortega y Gasset





" O mundo é o repertório das nossas possibilidades vitais. Não é, pois, algo à parte e alheio à nossa vida, mas é a sua autêntica periferia." José Ortega e Gasset


José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, Espanha,  a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário.  Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa. Ortega, além de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do século XX. Cursou as primeiras letras em Madrid 
e cursou o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga. Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida, reagiu contra os  fundamentos da ciência adquirida, formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia européia. Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid, onde se doutorou em Filosofia. Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo, na Alemanha, onde prevalecia o neokantismo. Com o desenvolver dos seus estudos, Ortega começou a adotar uma atitude crítica em relação aos seus mestres e a Kant, que se refletiu na afirmação: "Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei como a uma atmosfera que foi, ao mesmo tempo, minha casa e minha prisão (...) Com grande esforço, consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica". A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas. Com o início da guerra civil espanhola, em julho de 1936, Ortega decidiu andar pelo mundo, viajando à França, Holanda, Argentina, Portugal, países onde proferiu inúmeras conferências, faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955.  José Ortega y Gasset foi um filósofo que viveu os problemas de seu tempo e se preocupou com o destino da Espanha, que, em sua época, encontrava-se fragmentado, dividido e semeado por vários problemas sociais e políticos, que o impediam de acompanhar o desenvolvimento das outras nações européias. Para enfrentar esses problemas, Ortega pensou em uma solução sob à luz de uma teoria da realidade, que ele elaborou e que se tornou conhecida como raciovitalismo. Essa teoria centrava-se no conceito de vida experimentado na primeira pessoa. Com a  frase:  "Eu sou eu e minha circunstância", Ortega particulariza os problemas de cada homem. Com a continuação desta mesma frase:  "Se não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim", o filósofo indica que o homem pode mudar a sua vida, transformando a realidade em que vive, e se não fizer nada, afunda-se na circunstância e não dá sentido à sua própria vida. Formulando um pensamento diferente do realismo antigo e do idealismo moderno, Ortega afirma que não podemos pensar o mundo sem o Homem e nem este à parte do mundo. Ao abrir a compreensão da existência para um diálogo com a cultura e com o tempo, Ortega nos fala da responsabilidade com o  mundo a ser criado por nossas vidas, sua filosofia contempla  a responsabilidade de construir uma existência pessoal num mundo sem garantias e perigoso, numa história sem sentido prévio. Viver é abrir-se ao contato com os outros homens e com  as coisas,  é sair de  si mesmo, é arriscar-se  na construção do futuro. A filosofia de Ortega constituiu-se como uma forma inovadora de pensar, colocando o fundamento na vida e transformando-a numa realidade capaz de alterar as circunstâncias e realizar a vocação de cada Homem. Para Ortega, os problemas sociais e políticos encontrados na Europa, do seu tempo,  seriam causados  pela padronização do comportamento que forma a  massa social. O que o preocupava era o Homem não se comprometer com sua vocação ou missão.O Homem-massa, como ele  tratava as pessoas com esse tipo de comportamento, é o indivíduo que não atribui a si  um valor e, certamente, não se angustia com  isso, sente-se bem por ser igual aos demais. Dessa forma, o problema social constitui-se em um aglomerado de homens sem a preocupação de discutir os rumos políticos da sua nação e, desorganizados, constituírem blocos. Esse distanciamento dos  homens dos assuntos  políticos fez nascer lideranças demagogas. Esse acontecimento é o que Ortega chama de hiperdemocracia das massas assim compreendido: quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a imposição das massas quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão vinculadas a pressões materiais, e ao desejo de  poder sem o reconhecimento de leis, sem se preocuparem com a vida. O conceito de massa explica as dificuldades da sociedade contemporânea em se firmar como sociedade. Um dos sintomas mais evidentes da hiperdemocracia é o propósito das massas de fazer justiça por seus próprios meios. Ela recorre ao linchamento sem o reconhecimento das leis que asseguram a paz. Ortega  verifica que, quando as massas triunfam, reina também a violência. Para controlar a violência das  massas, nasce o Estado Ditatorial.  O Homem-massa não se preocupa com sua civilização, sua cultura e sua educação, que são os caminhos que ele tem para sair da vulgaridade. O resultado dessa situação é fatal para a vida humana porque os homens passam a viver em função do Estado, esta seria a razão dos governos totalitários haverem se espalhado em todo o mundo.  Segundo Ortega, o Homem-massa perdeu a responsabilidade e o sentido de uma vida que é única.


Site de referência:

http://www.culturabrasil.org
www.ortegaygasset.edu

sábado, 21 de janeiro de 2012

"Não basta pensar, É preciso sentir nosso destino". Miguel de Unamuno



“A oração do ateu”.

Ouve meus rogos Tu, Deus que não existes,
e em Teu nada recolhe estas minhas queixas;
Tu, que aos pobres homens nunca deixas
sem consolo de engano. Não resistes
ao nosso rogo, e nosso anelo viste,
quando mais Te afastas de minha mente;
mas recordo os doces conselhos somente
com que minh’alma acalentou noites tão tristes.
Quão grande és, meu Deus! Tu és tão grande,
que não és senão Idéia; é muito estreita
a realidade por muito que se expande 
para abarcar-te. Sofro eu por tua causa,
Deus não existente, pois se tu fosses realidade,
eu também existiria de verdade.

(Unamuno)


Miguel de Unamuno nasceu em 1864, em Bilbao, na região basca, foi o terceiro dos seis filhos de Félix Unamuno,  proprietário de uma padaria, e de Salomé Jugo, que era sua sobrinha. Quando seu pai morreu, Unamuno foi criado por um tio. Em sua infância, ele testemunhou a violência entre as forças progressistas e tradicionalistas durante o cerco de Bilbao, essa experiência deixou marcas profundas no seu pensamento político. Cursou  filosofia e letras. Recebeu o título de doutor ao apresentar uma tese sobre a língua basca. Dominava 14 idiomas, e para ler Kierkegaard no idioma original, aprendeu dinamarquês. Voltou para Bilbao, onde ficou até 1891. Foi nesse ano que Unamuno obteve a cátedra de Grego na Universidade de Salamanca e, em 1901, foi nomeado como reitor da mesma universidade. Em 1914, Unamuno foi destituído do cargo de reitor por causa de suas posições políticas. Apesar de ter retornado ao cargo  foi afastado diversas outras vezes, pelos mesmos motivos. Em 1924 exilou-se na França, e lá ficou até 1930. No ano seguinte, com a proclamação da República, Unamuno pode assumir de novo o cargo de reitor na Universidade de Salamanca,  desencantou-se com o governo republicano e passou a ser entusiasta dos militares rebeldes, que eram comandados pelo general Francisco Franco. Seu novo posicionamento fez com que fosse novamente destituído, em 1936 quando começou a Guerra Civil Espanhola. Os franquistas, após dominarem a cidade, levaram Unamuno de volta ao cargo, mas perdeu-o mais uma vez, ao criticar o governo de Franco. Ficou em prisão domiciliar, onde permaneceu até os últimos dias de sua vida.  Miguel de Unamuno faleceu em 1936, em Salamanca. Unamuno é considerado o precursor do existencialismo em seu país, suas obras são conhecidas por romperem com os gêneros tradicionais. No centro do seu pensamento está o conflito profundo entre fé e razão, dois elementos que são, em princípio, antagônicos. A base sobre a qual Unamuno constrói seu pensamento é a afirmação de que não há filosofia sem um ser humano que filosofe, isto significa que a filosofia é um produto humano e de cada filósofo, e cada filósofo é um homem de carne e osso que se dirige a outros homens de carne e ossos como ele. Unamuno chama este homem que filosofa de "homem concreto, de carne e osso" e afirma que ele é o sujeito e, ao mesmo tempo, o supremo objeto de toda filosofia,  assim, Unamuno conclui que filosofa o homem, e  evoca um velho provérbio latino: " Priimum vivere, deinde philosophari ", (primeiro viver, depois filosofar) para lembrar que o filósofo antes de ser necessita viver para poder filosofar. É entre a vida e o pensamento, entre a existência e a filosofia, a racionalidade e a irracionalidade, que Unamuno localiza a fome de imortalidade, tão presente em sua obra, que revela a sede de eternidade e o desejo de querer viver sempre, presentes nos seres humanos. A fome de imortalidade nasce da constatação de que não podemos conceber-nos como não existindo, e, a partir disso, surge o anseio humano pela imortalidade, pela eternidade, que não é outra coisa que o amor entre os homens, pois quem ama a um outro é porque quer eternizar-se nele. Frente a vaidade do mundo Unamuno contrapõe o amor, sendo o único que preenche e eterniza a vida, o que pode lutar contra o destino, e o único que pode vencer o destino, e uma vez vencido o destino, abrem-se as portas da liberdade.


Site de referência:

http://pensador.uol.com.br

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"Na origem da Filosofia está a experiência humana na sua plenitude." Berdiaeff



Leon Chestov e Nikolai Berdiaeff:


"Os metafísicos são muito mais obcecados pela necessidade de se persuadir da existência de Deus do que pela sua existência propriamente dita." Chestov


“Desde sempre, dividiram-se para mim os homens entre os dostoievskianos e aqueles a quem o espírito de Dostoievski era estranho” Berdiaeff


Nikolai Berdiaeff  foi, ao lado de Lev Chestov,  um dos mais conhecidos filósofos russos do início do século passado, que influenciou decisivamente o pensamento existencialista. Foi ele quem falou de uma “ideia russa” de cultura: “A ideia mestra da minha vida é a ideia do homem, do seu rosto, da sua liberdade criadora e da sua predestinação criadora. Mas tratar do homem é já tratar de Deus. Isso é essencial para mim”. E daí a necessidade da ligação da espiritualidade à existência, porque “ A Verdade implica a atividade do espírito do homem, o conhecimento da Verdade depende dos graus de comunidade que podem existir entre os homens, da sua comunhão no Espírito ”. Leon Chestov atuou no panorama do existencialismo francês juntamente com Berdiaeff, onde residiram como imigrantes desde a Revolução Soviética na Rússia, na antiga URSS. Chestov e Berdiaeff foram os dois mais importantes representantes do existencialismo russo. É quase impossível referir-se a Chestov sem que se faça menção a seu amigo Berdiaeff.  Durante o período entre as guerras, Primeira e Segunda Guerra Mundial, é constatada a presença de muitos escritores e filósofos russos em Paris, dando um certo ar de família, apagando um pouco as diferenças de pensamento desses pensadores e reunindo-os em torno da língua e da cultura russa. Chestov e Berdiaeff divergiam nas idéias e nos procedimentos, a concepção de mundo para ambos era bem diferente.  Berdiaeff e Chestov sempre discutiam, mas, de certo modo, tinham uma espécie de comunhão existencial, o que aponta o quanto pesquisavam a vida como sensação, liberdade e responsabilidade.


Site de referência:

http://www.cnc.pt



















quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Nostalgia de Deus.

"De Deus ao homem e do homem a Deus". Nikolai Berdiaeff.

Filósofo soviético nascido em Kiev, nascido e criado em uma família aristocrata, Nikolai Berdiaeff foi um dos principais representantes do existencialismo cristão, e crítico da maneira como as idéias de Karl Marx foram postas em prática na União Soviética. Envolvido em atividades marxistas foi condenado a três anos de exílio, depois de cumprida a pena morou em São Petersburgo, onde tomou parte em movimentos culturais e religiosos. Mudou-se para Moscou em 1907 e, após a revolução em 1917, lecionou filosofia na Universidade de Moscou, mas entrou em conflito com o regime e principalmente por suas ligações com a igreja ortodoxa russa, foi expulso do país. Radicou-se em Paris, cidade onde, com outros exilados, fundou uma academia de estudos filosóficos e religiosos em 1924 e um jornal, 'Put' em1925, por meio do qual combateu o comunismo. Paralelamente combateu também a ordem industrial capitalista, responsabilizando-a pela desumanização da sociedade e da cultura.  Berdiaeff entendia que a felicidade não era organizável, " A felicidade escapa a todo tipo de planificação e ordenamento porque sua matéria-prima é a liberdade, e a  felicidade de um não coincide com a de outro". Entre seus trabalhos estão: A Filosofia da Liberdade (1916), O sentido da história (1923), A Idade Novo Oriente (1924), O Homem ea Máquina (1933), O destino do homem no mundo contemporâneo ( 1934), o cristianismo ea realidade social (1934), Cinco meditações sobre a existência (1936), a metafísica Teste escatológico (1946), A idéia russa (1946) e Escravidão e liberdade do homem (1947).  Berdiaeff concebe a filosofia como o conhecimento do mistério do ser humano, porém esse conhecimento deve ser feito com referência à existência humana. Berdiaef, sublinha a natureza essencial do homem e da liberdade, sendo que essa liberdade expressa-se no desenvolvimento criativo, e na conjunção das três dimensões do homem: espírito, alma e corpo. Ele distingue duas liberdades: a liberdade-graça e liberdade-escolha.  Berdiaef faz um retorno à existência autêntica, acreditando que a humanização de Deus em Cristo abre o caminho para  tornar  o homem Deus. A história é o cenário onde desenvolve-se o drama da existência até o fim transcendente na divindade perfeita. Berdiaeff defende um espiritualismo profetizante. Sobre o fundo comum do existencialismo, concebe o homem como indivíduo, ligado ao mundo da natureza. Mas o homem, segundo Berdiaeff,  supera o limite que o separa de sua própria singularidade, colocando-se como pessoa. O homem, enquanto pessoa, vive sua própria existência, vive sua própria vocação com consciência e responsabilidade. A solidão originária do homem, para Berdiaeff, não pode ser resolvida senão em Deus: "É nele que a plenitude pode ser alcançada, após descoberto o verdadeiro sentido da existência". "Ontologicamente, a solidão é a expressão da nostalgia de Deus como sujeito e não mais como objeto, porque Deus não pode ser nunca um objeto, um outro, senão que vive na alma e revela-se como momento constitutivo da personalidade espiritual do homem. Na profundidade do espírito, nasce essa humana e eterna nostalgia de Deus, e a procura de Deus por parte do homem transforma-se na procura de si mesmo, da própria humanidade". Neste surgir de Deus na alma, Berdiaeff encontra um movimento duplo: "De Deus ao homem e do homem a Deus". Portanto, pensa Berdiaeff que "na filosofia e na teologia seria necessário começar não pelo homem, nem por Deus, mas pelo Deus-Homem. A existência, então, desemboca no Deus-Homem, em Cristo, em quem se restitui o laço desfeito entre o homem e Deus, e o homem liberta-se da escravidão da natureza e da morte".  "Toda a vida é diferente depois da vinda de Cristo." Sob essa perspectiva,  Berdiaeff constrói um ética nova. "A ética da redenção completa-se por uma ética nova, criativa e profética, que carrega sobre o homem a responsabilidade pelo próprio destino e o do mundo".

Sites de referência:

 http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias

www.mcnbiografias.com


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O plural só começa com três.


"Todas as coisas são possíveis" Chestov.


Chestov  afirmava que todas as decisões do homem são   somente por ele tomadas. A existência precede a essência, ou seja, os fatos ou realizações da vida não são fruto de pré-estabelecimentos ideais ou divinos. O homem de hoje é fruto de suas decisões passadas, podendo desfrutar de plena liberdade de escolha, porém a liberdade pode estar ameaçada pela própria racionalidade humana, a partir do momento que ele é impedido de projetar-se ao Absurdo. Vê-se o Absurdo como o ilógico e indecifrável. Afirmar a existência de uma realidade extra-racional é afirmar o Absurdo. Logo, Deus é o absurdo e aquele que não o reconhece é escravo da razão. O homem livre é aquele que se projeta a Deus. Projetar-se a Deus não consiste na busca de melhor compreendê-lo ou classificá-lo, mas aceitá-lo como Absurdo. “No termo das suas análises, Chestov descobre o Absurdo fundamental de toda existência, não diz “eis o Absurdo”, mas “eis Deus”: é nele que se deve confiar, mesmo que ele não corresponda a nenhuma das categorias racionais que se possa ter. O homem racional somente consegue segurança existencial diante das convicções lógicas, plausíveis. Ele possui a necessidade da racionalização de sua realidade. O homem da fé está convicto da impossibilidade de se compreender Deus, e é diante dessa impossibilidade que ele se projeta a Deus pela fé. Deus é contraditório e incompreensível, mas está na medida em que o seu rosto é mais indescritível que mais se afirma seu poder. A sua grandeza é a sua inconseqüência ou não previsibilidade, ou seja, para que o homem mergulhe em Deus, é necessário a irracionalização de Deus. Para Chestov a aceitação do Absurdo é contemporânea ao próprio Absurdo: Deus. Camus  escreveu sobre Chestov em “O Mito de Sísifo”:
“Nenhum dos fatos irônicos ou ridículas contradições que depreciam a razão escapam a ele. Apenas uma coisa o interessa, e é a exceção, seja no domínio do coração ou da mente. Através das experiências dostoiveskianas do homem condenado, das exacerbadas aventuras da mente nietzscheana, das maldições de Hamlet ou da amarga aristocracia de Ibsen, ele persegue, ilumina e magnifica a revolta humana contra o Irremediável.” Em 1936 visita Jerusalém, onde seu pai estava enterrado. A experiência foi definitiva para Chestov, e os reflexos dela forneceram o material para sua obra definitiva: "Atenas e Jerusalém", lançado em 1937, um ano antes de sua morte. Nessa obra, Chestov caracteriza Atenas, berço da filosofia e da civilização ocidental, como a cidade do triunfo da Razão e do Cientificismo; em oposição a ela, Jerusalém, a cidade espiritual que viu a encarnação do Deus Vivo. Atenas também é a cidade da Queda, tema que obssessivamente Chestov perseguiu durante toda a sua vida e que, igualmente, seduziu a Cioran: para ele, o mito de Adão representava a opção do homem em trocar a Fé pelo Conhecimento. Comendo o fruto da Árvore da Ciência, pecado que todos os homens repetem sem cessar, abre-se mão da liberdade primordial pela angústia da Consciência e da Razão. Para Chestov, A filosofia, longe de conduzir o homem ao conhecimento da Verdade, nada mais faz do que pegá-lo pela mão e levá-lo através de um caminho de mentiras, de conhecimentos falsos, de pretensões seculares; concede facilidades ao espírito e apenas isso, através daquilo que Chestov denomima verdades autoevidentes. Já a Fé, exige muito mais – a disposição para crer, para simplesmente acreditar em algo que não se pode provar por leis racionais, exige do homem, segundo Chestov, uma audácia que os modernos já não mais possuem, incapazes que estão de vislumbrar qualquer elemento que não se encaixe na lógica racional. Este é o principal mote de" Atenas e Jerusalém": acreditar é tão sem sentido que Deus só pode ser crível se experimentado como um absurdo. Escapa aos julgamentos, escapa até mesmo à linguagem. A vida em si se torna uma experiência que não se limita às categorias racionais; o cotidiano repetir de eventos, apenas um tedioso movimento.

Site de referência:
 http://existencialismo.sites.uol.com.br/chestov.htm

Referências bibliográficas:

Todas as coisas são possíveis, trans. por SS Koteliansky, introd. por DH Lawrence, Londres: Martin Secker, 1920, 244p.
Dostoiévski, Tolstoi e Nietzsche, traduções por Bernard Martin e E. Spencer Roberts, introd. por Bernard Martin, Athens (EUA): Ohio University Press, 1969
Atenas e Jerusalém, trans. por Bernard Martin, Atenas: Ohio University Press, 1966, 447p.
Kierkegaard ea filosofia existencial, trans. por Elinor Hewitt, Athens (EUA): Ohio University Press, 1969, 314p.