quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

"Um homem não é outra coisa senão o que faz de si mesmo". Sartre.


" A filosofia toca o trágico e o absurdo se detendo em Deus, ou seja, Deus é o absurdo." Lev Chestov.

Lev Chestov Isaákovich nasceu em Kiev, Rússia em 1866, de família judia, estudou Direito e Matemática na universidade de Moscou. É considerado o principal expoente do existencialismo religioso na Rússia , viveu em São Petersburgo durante a Revolução Russa , após a revolução, exilou-se na França até sua morte em 1938 em Paris. Chestov foi inspirado por  Nietzsche em relação ao anarquismo , mas também foi influenciado pelo significado religioso de  Kierkegaard . Essas influências o levaram a investigar a história de abordagens filosóficas ocidentais, os confrontos críticos entre Fé e Razão, os expoentes da filosofia e literatura, a fim de concluir que o primeiro tem precedência sobre o segundo, isto é, A Fé antecede a Razão em relação à solução dos problemas transcendentais do homem. Chestov foi filósofo e escritor “radical”; um místico, contrário a filosofia especulativa, da ciência, da razão e da moral. Seu principal pensamento permeia a questão da fé incondicional, e sua filosofia, toca o trágico e o absurdo se detendo em Deus, ou seja, Deus é o absurdo. León Chestov, na verdade se chamava Issaakovitch Chuartzsman, dito Lev Chestov, como normalmente é conhecido. Polemizado contra as pretensões da razão e da ciência, defendeu a idéia de uma fé incondicionada, levando ao extremo a oposição entre fé e razão traçada por Kierkgaard.  Seu  trabalho filosófico "O Bom no Ensino de Tolstoi e Nietzsche", 1899 e "A Filosofia da tragédia, Dostoiévski e Nietzsche", 1903, mostram o quanto Chestov foi influenciado por esses grandes autores, a partir desses trabalhos, a reputação de Chestov como um pensador original e incisivo, aumentou consideravelmente. Em "Todas as coisas são possíveis", publicado em 1905,  Chestov adotou, assim como Nietzsche, o aforismo como estilo. Nesse trabalho, Chestov aborda questões como a religião , o racionalismo e a ciência, assuntos que ele iria examinar mais profundamente em escritos posteriores. A princípio, as obras de Chestov não foram bem recebidas, inclusive por alguns dos seus mais próximos amigos russos, muitos viram no trabalho Chestov  uma renúncia à razão, a metafísica , e até mesmo uma adoção do niilismo, no entanto, ele iria encontrar admiradores como os escritores  David Herbert Lawrence e seu amigo Georges Bataille . Em 1908 mudou-se para  Freiburg , na Alemanha,  ficou lá até 1910, durante esse tempo trabalhou arduamente, um dos frutos deste trabalho foi a publicação de "Vigílias Grandes e Palavras Penúltimas". Chestov retornou a Moscou em 1915. A tomada de poder dos bolcheviques em 1917 tornaram a vida difícil para Chestov, os marxistas o pressionaram a escrever uma defesa da doutrina marxista como introdução do seu novo trabalho, "Potestas Clavium", caso contrário não seria publicado. Chestov recusou-se indo para França como refúgio. Em Paris tornou-se figura popular e reconhecida onde sua originalidade foi rapidamente reconhecida. Nos anos entre guerras, Chestov continuou a desenvolver um pensamento de grande destaque. Durante este tempo, ele ficou totalmente imerso no estudo de grandes teólogos, tais como Blaise, Pascal e Plotino. Em 1926 Chestov foi apresentado a Edmund Husserl, com quem manteve um relacionamento cordial, apesar das diferenças radicais em suas perspectivas filosóficas. Em 1929, durante o retorno à Freiburg reuniu-se com Edmund Husserl , e foi estudou com Kierkegaard. A  filosofia de Chestov partilha grandes semelhanças como a de Kierkegaard no que se refere à rejeição ao idealismo, e sua crença de que o homem pode adquirir conhecimento  através da subjetividade. No entanto, Chestov sustentava que Kierkegaard não teria seguido essa linha de pensamento o suficiente, e  tentou prosseguí-la a partir de onde ele achava que essas ideias requeriam continuação. Os resultados desses estudos são vistos em seu trabalho "Kierkegaard e Filosofia Existencial". Em sua principal obra , "Atenas e Jerusalém", Chestov examina a necessidade  da "razão" ser retirada da disciplina de filosofia, já que a ciência se preocupa com fatos empíricos e de observação, enquanto a filosofia deve se preocupar com a liberdade , com Deus e com a imortalidade , questões que não podem ser resolvidos pela ciência.  Em 1938, Chestov contraiu uma doença grave, durante este período final, ele continuou seus estudos, concentrando-se em especial sobre a filosofia indiana , bem como nos estudos sobre seu contemporâneo , Edmund Husserl. Chestov morreu em uma clínica em Paris em 1938.

Site de referência:
www.letras.ufrj.br/



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"A Existência vem da sua liberdade".


"... quando eu era criança, li um velho conto judaico que não pude compreender, ele não dizia mais do que isso: 'Fora dos portões de Roma está sentado um mendigo leproso, esperando. Ele é o Messias'. Então me dirigi a um ancião, a quem perguntei : 'O que ele está esperando?' E recebi uma resposta que então não consegui entender, somente muito mais tarde. Ele me disse: 'Está esperando você'." Martin Buber.


Martin Buber:

A visão política de Martin Buber vincula indissoluvelmente paz e justiça, tanto nas relações interiores como nas exteriores às comunidades humanas. Ser um nós, para ele, é reconhecer que a responsabilidade constitui a face ética do diálogo, e entender que somente os que são capazes de dizer um ao outro: tu podem dizer um com o outro: nós. Nessa perspectiva, Buber afirmou: "Se todos estivessem bem vestidos e bem alimentados, então pela primeira vez o problema ético real passaria a ser totalmente visível."  A filosofia de Martin Buber constitui-se, propriamente, no debruçar-se sobre o sentido do humano, que ele compreende, essencialmente, como relação com o outro, com o mundo, com o transcendente. A sua filosofia do diálogo nos permite situar a formação a partir do compromisso com o mundo no qual vivemos. Uma elaboração que possibilite os indivíduos a se desenvolverem de maneira autônoma e autêntica. Martin Buber tornou-se conhecido por sua filosofia do diálogo, sobretudo pela sua elaboração na obra Eu e Tu, publicado em 1923. Trata-se de uma reflexão sobre o sentido do humano, ao mesmo tempo em que é um convite a uma existência autêntica, aquela que só se expressa na vivência dialógica. Compreendendo a pessoa humana como ser de relação, Buber a caracteriza segundo as palavras-princípios que ela pronuncia – Eu-Tu ou Eu-Isso, modos de existência que refletem dois pólos da mesma humanidade e a sua dupla atitude face ao mundo, compreendida como posição fundamental de se colocar a qualquer dos existentes. A relação Eu-Tu, reflete a atitude do encontro com o outro, expressão do significado mais profundo da existência humana, que se revela no engajamento, na solidariedade com o mundo; reflete o comprometimento incondicional com o outro. Já o relacionamento Eu-Isso expressa o distanciamento, a objetividade; reflete a atividade do saber, do experimentar, do utilizar. a relação Eu-Tu, não significa negar a importância do relacionamento Eu-Isso, cujo significado no campo do conhecimento objetivo, no trato com o mundo, é inegável. A relação, que é possibilidade de um encontro dialógico sempre novo, encontra-se envolta na condição de gratuidade, que nos permite reconhecê-la em sua dinâmica de abertura-expontaneidade. Como Buber afirma: “O Tu encontra-se comigo por graça; não é através de uma procura que é encontrado. Mas endereçar-lhe a palavra-princípio é um ato do meu ser, meu ato assencial”. A existência autêntica encontra-se profundamente vinculada à relação com o Tu Eterno. Uma relação que se constitui no mundo, pressupondo que aquele “que verdadeiramente vai ao encontro do mundo, vai ao encontro de Deus”(Buber). Umaexperiência que não afasta o homem da vivência mundana, mas o compromete com a sua existência e com as dos demais entes do mundo, enquanto confirmação de significado que não podemos experimentar mística ou intelectualmente, mas só podemos acolher e viver. Compreender o humano como ser de relação significa, por sua vez, a impossibilidade de compreendê-lo isoladamente, mas apenas na sua relação com o mundo: sua família, seu trabalho, suas responsabilidades e obrigações, experiências que nos permitem caracterizar o humano como ser essencialmente vinculado à comunidade. Segundo Buber, “Comunidade significa, aqui e agora, multiplicidade de pessoas, de modo que sempre seja possível para qualquer um que a ela pertença estabelecer relações autênticas, totais, sem finalidades...”

Referências bibliográficas:

BUBER, M. Eu e Tu. Trad. N. Aquiles von Zuben. 2ª ed. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.
______. Do diálogo e do dialógico. Trad. Marta E. de S. Queiroz e R. Weinberg. São Paulo:
Editora Perspectiva, 1982.
______. Sobre comunidade. Trad. Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Perspectiva, 1987

Site de referência:

 http://pt.scribd.com


A existência é no mundo.


" A mediação entre o eu, o mundo e os outros, é a consciência de mim no meu corpo."Gabriel Honoré Marcel.

 Gabriel Marcel afirma que a  a existência é o ponto de partida e de referência do trabalho filosófico a partir da questão Quem eu sou? Sou uma encarnação, segundo Marcel.  A mediação entre o eu, o mundo e os outros, é a consciência de mim no meu corpo. A existência humana, para Marcel, é essencialmente itinerância, um movimento, um peregrinar orientado por um propósito. Ao nascer, o homem dá início a sua jornada neste mundo, no qual não tem morada definitiva. Existir é caminhar e não deixar nunca de caminhar. O peregrino  é um  ser encarnado, concreto e singular. Sempre situado no mundo, e, por ele constantemente influenciado. O peregrino se engaja para transfor o mundo, para dar-lhe sentido, é alguém que caminha sempre em busca de ser mais do que é. O peregrino, ao contrário do andarilho solitário, caminha engajado, com os outros, assim, o peregrinar é a condição de possibilidade para encontrar respostas àquelas interrogações mais profundas e decisivas que surgem na vida ao longo do caminho. O amor e a fidelidade é o fundamento da verdadeira comunhão, segundo Marcel,  este é o pressuposto básico para o surgimento autêntico da esperança. Sempre como exigência ontológica do homem, a esperança se constitui num apelo que nasce do mais profundo do ser no momento do sofrimento, da mais sofrida provação; ali onde intervém a tentação de desesperar. Para Gabriel Marcel, o existente não é uma idéia, mas um ser concreto, individual, que sofre, se angustia, se projeta no mundo, se constrói com o outro e que carrega dentro de si uma profunda esperança de vitória sobre a morte. Para Marcel a filosofia deve partir do solo da experiência, das situações cotidianas da vida concreta do homem e, em sentido de perfuração, penetrar na sua existência de modo a iluminá-la. Gabriel Marcel, discordou e em um determinado momento confrontou-se com o filósofo idealista Leon Bruschvicg, confronto que ocorreu devido a uma forte afirmação de Leon de que "não há nada além deste mundo cognoscível, e afirmar a existência de algo que estivesse além do conhecimento humano seria um absurdo". Essa afirmação objetivista e reducionista não agradou a Marcel, que trazia consigo a dura experiência da dor e da morte de milhares de seres humanos na Primeira Guerra Mundial. A partir daí rompeu definitivamente com o idealismo em nome de uma filosofia concreta, da experiência e da esperança. Uma filosofia na qual pudesse encontrar respostas para suas mais profundas inquietações existenciais. Ao abordar a existência humana como itinerância, Marcel se propõe ao máximo ser fiel ao homem e ao mundo concreto. Suas compreensões conquistadas acerca do homem são substancialmente resultado da sua própria experiência pessoal e do contato direto com a vida concreta das pessoas com as quais conviveu. Para Marcel o pensamento e a vida devem andar juntos, pois do contrário, o pensamento, ao desligar-se do concreto, decolaria para uma abstração sem fim, enquanto a vida continuaria na penumbra da falta de rumo, de propósito e de sentido. A filosofia concreta, antes de qualquer coisa, pretende ser uma ponte entre nossa vida concreta e o pensamento reflexivo, procurando o sentido último da existência humana. O homem não nasce pronto, frente às possibilidades dadas e construídas por ele mesmo ao longo do caminho é que realiza a nobre e interminável tarefa de fazer-se mais do que é. Cada passo que é dado, é dado na direção do que deseja ser mais, na direção do que projeta ser mais. O homem sempre busca ser mais, anseia por completude. Segundo Marcel as questões mais profundas e decisivas da vida, as quais o intelecto não consegue dar conta, só podem encontrar respostas ao longo do caminho. Em suas ideias, afirma que a existência humana é um mistério do qual participamos e  peregrinar é uma forma de penetrar neste mistério, compreendê-lo melhor pouco a pouco e, assim, experimentar uma parte de sua inesgotável riqueza. O homem que rejeita caminhar, que opta pelo suicídio, rejeita viver esse mistério maior que é o existir, o aperfeiçoar-se, o fazer-se mais do que é, o conviver. A existência é um mistério porque não está fora do homem, pelo contrário, é o modo de ser no mundo e com os outros, próprio do ser humano. A encarnação situa-se no âmbito do mistério, pois não é algo separado de mim, todavia, o fato da encarnação ser um mistério não significa que é totalmente velada,  pois somos seres encarnados, participamos diretamente da encarnação e, portanto, temos condições de aos poucos desvelá-la, mesmo que de modo parcial. Ser encarnado é manifestar-se ao mundo, é lançar-se em itinerancia, através do corpo, tendo a consciência de que ele não é uma peça, uma máquina ou um objeto de uso, mas sim o "meu corpo", formando comigo uma unidade indissolúvel, de modo que, me é impossível reconhecer-me sem ele. O reconhecimento da condição de itinerância e temporalidade do homem fizeram com que Marcel substituísse o termo de heidegger ser-no-mundo pelo termo estar-no-mundo. Afinal, o verbo estar em relação ao verbo ser caracteriza melhor a condição transitória do homem, a sua "passagem-pelo-mundo". O fato do peregrino estar-no-mundo não significa que ele se comunica com o mundo, pois só há comunicação verdadeira quando há comunhão e esta, por sua vez, só é possível no âmbito da subjetividade e não no dos objetos do mundo. O peregrino, através de sua encarnação, é uma presença concreta que participa do mundo e da vida dos outros. Não é uma pedra imóvel à beira do caminho, mas sim uma presença viva, aberta, em movimento.

 Site de referência:
http://www.filosofia.ufc.br/

Referências bibliográficas:
ZILLES, U. Gabriel Marcel e o Existencialismo.
Porto Alegre: Ed. PUCRS/Acadêmica, 1988



segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A inquietação existencial:


Existir para Karl Jaspers:

"Existir significa, pura e simplesmente, filosofar, se bem que filosofar nem sempre signifique fazer filosofia. Com efeito, filosofar significa para o homem, antes de mais, defrontar, com olhos bem abertos, o seu destino e a si mesmo pôr, com clareza, os problemas que resultam da justa relação consigo próprio, com os outros homens e com o mundo. Significa não já limitar-se a elaborar conceitos, a idear sistemas, mas escolher,decidir, empenhar-se, apaixonar-se; em suma, viver autenticamente e ser autenticamente ele próprio". (Karl Jaspers)


Interlocutor simultâneo de Kierkegaard e de Nietzsche, Karl Jaspers foi, juntamente com Heidegger, um dos mais atentos e interessados pesquisadores da existência humana, assim como um dos grandes renovadores do pensamento filosófico do século XX.  No que diz respeito à obra de Nietzsche, Jaspers aceitou a transmutação dos valores, estruturada numa crítica demolidora dos vários grilhões da Verdade, e a exaltação da paixão dessa mesma Verdade.  A filosofia existencial de Karl Jaspers assenta-se em três conceitos fundamentais: o mundo (Dasein), a existência e a transcendência, essas forças caracterizam-se por uma unidade fundamental que advém da luta que as distingue e as impele na direção umas das outras. Coexistem em cada um de nós e constituem aquilo que somos. O Dasein é o homem na sua vida vulgar. Enquanto Dasein, o sujeito está ao nível da vida e só pelo conjunto da vida consegue explicar a si próprio que vive e morre porque está ligado a um corpo. O Dasein está no mundo mas não se reflete a si próprio enquanto presença no mundo. Falta-lhe o que lhe permite estabelecer um horizonte de significação com o mundo e reconhecer-se ou re-ver-se interiormente na qualidade de outro em relação ao próprio mundo: a consciência. No entender de Jaspers, a existência é uma realidade que oscila entre a subjetividade e a objetividade e manifesta-se como Dasein. O sujeito vive nela e é dela que tira todas as suas possibilidades, mesmo sem poder apreendê-la ou ver o seu próprio eu. A compreensão da transcendência é ajudada e enriquecida com a distinção que Jaspers estabelece entre os conceitos de situação e de situações-limite. Ao nível da Existência, a presença é um existir em situação, não é o estar-aí, mas o ser-aí do sujeito que transforma um fato ou um acontecimento em situação dando-lhe conteúdo e significação, inserindo-a num horizonte de historicidade. A situação não vale pelo seu fora, mas pelo seu dentro. O valor existencial da situação não reside naquilo que lhe é exterior, como os fatos e os acontecimentos que a envolvem, por exemplo, mas naquilo que a faz existir como situação: o sujeito, o eu. E o sujeito ou o eu está sempre em situação. Luta, culpa, dor, sofrimento e sentimento de morte. São originados na própria liberdade que, por ser (na Existência) tendência para o absoluto e para o incondicionado, acaba por querer o impossível. Como a liberdade é luta e conflito, a culpa é inevitável. O homem pode tentar suprimi-la, mas não pode escapar a ela. Negar esta culpa equivaleria a assumir uma outra, tão ou mais dolorosa e difícil, tão ou mais aniquiladora do próprio sujeito: a da negação da própria liberdade.  A culpabilidade é inerente à própria liberdade e à própria Existência. Embora as situações-limite sejam, marcas profundas e autênticas da presença da Transcendência, vive-se, perante elas, no seu próprio limite. Face a este limite, o desespero e a angústia invadem-nos com frequência, nada ver por detrás delasnão significa que nada existe para além  delas. Jaspers compara-as a um muro contra o qual se embate, porque é da queda que o homem se pode erguer de novo. Encarar as situações-limite, sem fugir e sem as negar, é o único modo que o homem  tem de poder decifrar ou ver o que está para além delas. Porque elas estão-lá, sem que sejam previsíveis nem superáveis, sem que se possam deduzir de alguma outra coisa, ser explicadas ou modificadas. E é precisamente nisso que reside a sua grandeza. Assumir livremente a sua ruína é a única forma do homem descobrir que essa ruína não é o fim, mas um novo princípio e um novo começo. O desespero e a angústia não surgem apenas da possibilidade de vivermos uma determinada situação como limite dessa mesma situação. Surgem também da nossa liberdade de decisão."Escolher". Não poder deixar de escolher, mas escolher autenticamente, realizar esta liberdade que torna o sujeito responsável pela sua Existência.



Referências bibliográficas:

Abbagnano, N. (s.d.). Introdução ao existencialismo.
Lisboa: Editorial Minotauro.
Antunes, M. (1973). Grandes contemporâneos. Lisboa:
Editorial Verbo.
Blumenberg, H. (1990). Naufrágio com espectador: Paradigma
de uma metáfora da existência. Lisboa:
Vega

Site de referência:

http://www.scielo.oces.mctes.pt/


domingo, 15 de janeiro de 2012

"Eu não tenho ensinamento algum. Eu conduzo um diálogo." Martin Buber.


 "Aos 17 anos li "Assim falava Zaratustra" de Nietzsche, este livro apoderou-se de mim... não agiu sobre mim como um dom benéfico mas como uma agressão da qual fui vítima... que me tirou a liberdade a qual só consegui recuperar após longo tempo". Martin Buber.



Martin Buber e a existência:

 "Durante sua passagem pelo caminho terreno, o homem foi aumentando em ritmo crescente o que se costuma denominar de seu poder sobre a natureza, e conduzir, de triunfo em triunfo, o que se deliberou denominar de a criação de seu espírito. Entretanto, enquanto passava por crise após crise começou a sentir, cada vez mais profundamente, a fragilidade de sua grandeza e, em horas de clarividência, conseguiu entender que, apesar de tudo o que se costuma chamar de progresso da humanidade, não caminha absolutamente por uma estrada aplanada, mas é obrigada a trilhar, pé ante pé, uma estreita cumeada entre abismo. Quanto mais grave for a crise, tanto mais sério e consciente da responsabilidade é o conhecimento que de nós se exige pois, embora o importante seja o feito, somente o feito esclarecido no conhecimento contribuirá para superar a crise". Martin Buber.


O pensamento de Martin Buber se desenvolve em torno da distinção fundamental entre o mundo objetivo do Isso, e o pessoal do Tu, consistindo sua originalidade no descobrimento da essencial relação destas duas esferas com o Eu. De fato Buber não fala nunca do Isso e do Tu isolados do Eu, e sim de duas relações emparelhadas: Eu-Tu, Eu-Isso.  A significação central do pensamento de Buber está na relação com o outro. A filosofia de Buber deve ser compreendida como uma filosofia do encontro, ou do diálogo. O fato antropológico primordial, para ele,  é a relação. Por isso escreve, parafraseando o prólogo do Evangelho de João: “No princípio é a relação” (BUBER).  A relação, como diversas vezes lembra o autor, é reciprocidade.  A preocupação de Buber,  não foi a de criar conceitos abstratos, mas despertar a nostalgia do humano; para ele, a filosofia do diálogo, mais do que tratar do evento da relação no campo da ética, coloca a intersubjetividade como um fato antropológico fundamental. Mais do que o “dever ser” ético, Buber busca a resposta para a pergunta “o que é o homem?”. Na "filosofia do diálogo" de Buber, o homem pode relacionar-se de duas formas com os outros seres: tomando-os por objetos ou colocando-se na presença deles. Essas duas atitudes são expressas por aquilo que o autor chama de palavras-princípio, respectivamente a palavra-princípio EU-ISSO e a palavra princípio EU-TU. Para Buber  a linguagem é portadora da capacidade de ser. A palavra que, sendo dialógica, faz abertura ao mundo, a um outro, invoca a relação,  muito mais do que nomes e significados, ela indica a própria condição do homem como ser existente. Segundo Buber, o homem habita na sua palavra. Ela não só é proferida pelo ser, nas também instaura modos de existir do ser humano, ou melhor, uma postura de dualidade diante do mundo: “O mundo é duplo para o homem, segundo a dualidade de sua atitude. A atitude do homem é dupla de acordo com a dualidade das palavras-princípio que ele pode proferir” (BUBER). "Não é o homem que conduz a palavra, mas é ela que o mantém no ser", para Buber a palavra proferida é uma atitude efetiva, eficaz e atualizadora do ser do homem. Ela é um ato do homem através do qual ele se faz homem e se situa no mundo com os outros. A intenção de Buber é desvendar o sentido existencial da palavra, pela intencionalidade que lhe dá sentido. Martin Buber é um homem atípico exatamente porque recusa apresentar uma doutrina estruturada, formal, em sua obra,  pretendia abrir os olhos e as almas dos homens de sua época à realidade viva na qual devem tecer sua existência. Buber contribuiu valiosamente para o conhecimento do homem e da sociedade, segundo ele, o homem  assisti, impotente, a prepotência do princípio político, a supremacia avassaladora do Estado sobre o princípio social e ético. Neste estado de coisas este homem,  cada um de nós, concretamente,  sentimos ameaçadas a autonomia e as possibilidades de auto-afirmação da nossa  liberdade. Vivemos pela ideologia do progresso, acreditamos demasiadamente nas possibilidades pretensamente ilimitadas da razão, da ciência e da técnica. A proposta de Martin Buber para uma existência dialógica fundada sobre a relação inter-pessoal é original na medida em que é provocadora em sua simplicidade. Nada mais simples, na verdade, entender o homem como ser de relações". Na relação inter-humana o mais importante é que para cada um dos dois homens, o outro aconteça como este outro determinado; que cada um dos dois se torne consciente do outro de tal forma que assuma para com ele um comportamento, que não o considere e não o trate como seu objeto mas como seu parceiro num acontecimento de vida. Buber aponta três principais problemas para a realização do diálogo, do inter-humano. O primeiro é a dualidade de ser e parecer. O diálogo não acontece se aqueles que estão envolvidos nele são "simples aparência", isto é,  se estão preocupados com sua imagem, com o modo pelo qual desejam encontrar o outro. Os parceiros do diálogo devem "ser", apresentar-se sem reservas, como realmente é. O segundo problema diz respeito ao modo pelo qual percebemos os outros. Para Buber perceber o outro é tomar dele um conhecimento íntimo, diferente da observação analítica e redutora que transforma o outro em simples objeto. Tal percepção, tal conhecimento íntimo significa também "tornar o outro presente". O terceiro problema que dificulta a realização do diálogo é a tendência de "imposição" ao outro. Segundo Buber, um modo de afetar uma pessoa é impor-se a ela. Uma forma de ação para "tocar" o outro é encontrar-se também na alma dessa pessoa, como se nela instalado e incentivar aquilo que em em mim mesmo  reconheço como certo, o  "Eu e Tu" em relação, definem a base para as reflexões sobre uma nova concepção de comunidade como forma mais autêntica de vivência entre os homens.


Referências bibliográficas:

 BUBER, Martin. Do diálogo e do dialógico. Tradução de Marta Ekstein de Souza Queiroz e Regina Weinberg. São Paulo: Perspectiva, 1982.
BUBER, Martin. Encontro – fragmentos autobiográficos. Tradução de Sofia Inês Stein. Petrópolis: Vozes, 1991.
BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução. e introdução de Newton Aquiles von Zuben. 5.ed. São Paulo: Centauro, 2001

Site de referência:

 http://www.fae.unicamp.br





"O ser humano se torna eu pela relação com o você, à medida que me torno eu, digo você. Todo viver real é encontro." Martin Buber.


Martin Buber:

Martin Buber nasceu em Viena, em 1878, filho de Carl Buber e Elise Née Wurgast. Seus pais se separam quando Buber tinha quatro anos e ele viveu até os catorze anos com seus avós paternos, Salomão e Adela, em Lvov, na Polônia. Martin Buber  conviveu, em sua infância, com uma variedade de idiomas locais que facilmente absorveu como hebraico, ídishe, polonês, e alemão. Mais tarde, adquiriu outros idiomas como grego, francês, italiano, inglês e latim. Ainda jovem, segundo relatos do próprio autor, dois livros foram bastante marcantes: “Prolegômenos”, de Kant, e “Assim falava Zaratustra”, de Nietzsche.  Buber passou assim sua primeira infância com seu avô Salomão Buber, grande autoridade da Haskalah (iluminismo judeu). Junto dos avós, o jovem Buber teve a chance de experimentar a união harmoniosa entre a tradição judaica autêntica e o espírito liberal da Haskalah, e a atmosfera da casa era propícia para um profundo respeito pelo estudo. Teve ao mesmo tempo, a oportunidade de ler os textos bíblicos e de tomar contato com a tradição judaica. Aos 14 anos voltou a morar com o pai. Matriculou-se no ginásio polonês de Lemberg. Em 1896 Buber entrou para a Universidade de Viena, matriculando-se no curso de Filosofia e História da Arte. Toda a intensa vida social e cultural de Viena contribuiu para tornar Buber um apaixonado pela literatura,  filosofia,  arte e  teatro.  Em 1901 entrou na Universidade de Berlim onde foi aluno de Dilthey e G. Siimmel. Em Leipzip e Zurich dedicou-se ao estudo da psiquiatria e da sociologia. Em 1904 recebeu, em Berlim, o título de doutor em filosofia. Em Berlim entrou em contato com uma comunidade fundada pelos irmãos H. e J. Hart, a "Neue Gemeinschaft", que representava um oásis para a jovem geração: aí os jovens podiam se expressar livremente. A comunidade apresenta um desejo ardente de novos tempos: o lema era viver mais profundamente a humanidade do homem. Foi aí que Buber travou amizade com Gustav Landauer, pessoa que o influenciou profundamente.  Em 1923 foi nomeado professor de História das Religiões e Ética Judaica, na Universidade de Frankfurt. A cadeira, única na Alemanha, foi posteriormente substituída por História das Religiões. De 1933, quando foi destituído do cargo pelos nazistas, até 1938 Buber permaneceu em Heppenheim. Em 1938 aceitou o convite da universidade de Jerusalém, para lá ensinar Sociologia. Buber tinha então 60 anos. Esse período foi de intensa atividade intelectual. Suas pesquisas se aprofundaram em diversas áreas: estudos sobre Bíblia, Judaísmo e Hassidismo; estudos políticos, sociológicos e filosóficos. Buber morreu em Jerusalém a 13 de junho de 1965. Martin Buber não se deixa etiquetar por qualquer sistema doutrinário conhecido. Qualificações como místico, existencialista ou personalista nada mais fazem do que desvirtuar o sentido de sua vida e de sua obra, ele mesmo se qualificou como ‘atypischer Mensch’ (homem atípico). O maior compromisso de sua reflexão é com a experiência concreta, com a vida. 

Site de referência:

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"O homem deve ser inventado a cada dia." Sartre.



Gabriel Marcel e o existencialismo:

A obra de Marcel é marcada por uma originalidade filosófica sem precedentes. Contemporâneo de Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty e Sartre, Gabriel Marcel antecipa e infunde, já nas primeiras décadas do pensamento francês contemporâneo, um estilo de reflexão própria que levou à maturidade inúmeros temas e questões decisivas que encontraram lugar de destaque no movimento existencialista e fenomenológico. O fio condutor que atravessa toda a sua contribuição teórica é a temática da encarnação que ele mesmo caracteriza como o tema central de toda a metafísica. Assim, partindo da situação fundamental do homem como uma existência encarnada, isto é, como ser vinculado carnalmente à realidade concreta, Marcel explora substancialmente a ideia de uma participação ontológica mais ampla e profunda entre o humano e o mundo, entre o eu e o outro. A exemplo de outros pensadores de sua geração, Marcel foi um filósofo que reflete a situação humana num contexto histórico-filosófico extremamente crucial em que a humanidade assistiu uma irreparável crise cultural produzida, sobretudo, pelo advento da primeira grande guerra, pelos sistemas totalitários, etc. O ser humano percebe-se limitado, fragilizado e totalmente destruído diante da existência e constata que os sistemas de pensamento essencialistas, entre eles o idealismo, não fornecem uma resposta mais decisiva diante da crise que se abateu sobre a civilização. Sua filosofia, então, pode ser vista como um pensamento a caminho, como uma proposta de “filosofia concreta”, onde o transcendente aparece no centro de nossas experiências humanas, onde a descoberta de nossa situação como seres encarnados nos leva a uma participação no próprio ser. A partir desse contexto, Marcel passa a explorar a ideia do homem como projeto ou como um vir-a-ser. O homem deixa de ser uma essência, um ser definível de maneira exaurível para mergulhar na finitude e no presente como um ser encarnado. Ele se revela, antes de tudo, como uma experiência corporal. O corpo se torna uma categoria ontológica sem precedentes: ele se manifesta como uma experiência de mistério "eu não tenho um corpo, mas sou meu corpo"(Marcel).  É sob esta ótica que Marcel elevará o tema da encarnação como o dado central da metafísica. O que passa a entrar em jogo aqui é a interrogação radical sobre a existência humana, uma existência fragmentada e desumanizada, por isso, aos olhos de Marcel, a tarefa do filósofo deve visar absolutamente uma “filosofia do concreto”, no sentido de que o ato de filosofar deve ser o ato de“pensar em”, o que sugere uma relação com um “tu”. A filosofia nada mais é do que a tensão permanente entre o eu e as profundidades do ser no qual somos. Ao construir sua filosofia, Marcel partirá da questão da corporalidade, não afirmará que “eu tenho um corpo”, mas que “eu sou um corpo”,  utilizando a expressão "ser encarnado". O ser encarnado é a condição de acesso ao real, a concepção de corpo como ser encarnado nos faz sair do idealismo e “cair” no mundo da presença. O que Marcel pretende é compreender a realidade e a existência a partir do dado da encarnação, a partir do questionamento central da existência "Quem sou eu?"  Na vivência  encarnada do ser, por meio de posturas como recolhimento, fidelidade, amor, fé, compromisso, engajamento e esperança, percebemos o outro não como coisa, objeto ou um ser em terceira pessoa (ele), mas como um outro em segunda pessoa (tu); na percepção de que o outro é a possibilidade de auto-revelação. A existência é o ponto de partida e o ponto de referência da filosofia de Gabriel Marcel. Em oposição ao pensamento racionalista-idealista, objetivante e abstrato, antes que uma razão, somos  existência, real e concreta, inserida no mundo. Em outras palavras: a existência é, necessariamente, uma existência encarnada. Sendo um ser encarnado, nossa condição de ser existente nos é revelada de modo imediato e inconfundível como encarnação, isto é, enquanto a consciência mais gratuita de mim no meu corpo.

Referências bibliográficas:

MARCEL, G. Homo Viator. Torino: Borla. 1967.

ZILLES, U. Gabriel Marcel e o Existencialismo.

Site de referência:

http://www.filosofia.ufc.br