quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"Aquilo cuja existência pudesse ser demonstrada não seria nem poderia ser Deus." Gabriel Marcel.


Gabriel Marcel:


Gabriel-Honoré Marcel  nasceu em 7 de dezembro de 1889 e faleceu em 8 de outubro de 1973, em Paris, filho único do diplomata francês Henry Marcel. Perdeu sua mãe aos quatro anos. Foi educado pela avó materna e por uma tia de quem recebeu educação rigorosa e que veio a ser a segunda esposa de seu pai. Marcel foi sempre o centro do carinho e das atenções da família, mas sofria com as exigências de perfeccionismo acadêmico, sempre maiores apesar de seu excepcional rendimento escolar. Quando jovem gostava de viajar, o que lhe foi facilitado pela natureza do trabalho de seu pai. Quando este recebeu uma missão diplomática na Suécia, Marcel o acompanhou. Aprendeu com suas viagens várias línguas e conheceu a literatura de vários países. A filosofia foi um interesse precoce em Gabriel Marcel. Aos dezoito anos ele já trabalhava sua tese para diplomação em estudos superiores "As idéias metafísicas de Coleridge em suas relações com a filosofia de Schelling," e estudou filosofia na Sorbonne. Apesar de ter passado os exames para ser professor de filosofia nas escolas secundárias em 1910, ele nunca completou sua tese para o doutorado, cujo tema seria "sobre as condições necessárias para a inteligibilidade do pensamento religioso". A religião não fez parte da formação de Marcel. Tanto o pai quanto a madrasta eram agnósticos Seu pai era católico não-praticante e não se preocupou em batizá-lo, e sua tia e madrasta era judia, também não-praticante, porém depois converteu-se a uma forma liberal de protestantismo. Era uma moralista rigorosa segundo padrões de tradicionalíssimo moral. A família tinha como guias suficientes das atitudes corretas a 
razão, a ciência e a consciência moral natural. Durante a primeira guerra Marcel serviu como oficial da Cruz Vermelha, com a difícil missão de comunicar a morte e o desaparecimento de soldados aos parentes mais próximos, um contato permanente com o sofrimento que influenciou diretamente suas ideias. Em 1919 Marcel casou com Jacqueline Boegner, professora de música , eles adotaram um filho, Jean-Marie, que inspirou o filósofo a escrever mais tarde sobre paternidade criativa e o espírito da adoção. Marcel, que toda a vida sentiu a ausência de sua mãe, que perdera muito cedo, enfrentou novo choque com o falecimento de sua mulher em 1947. O fato decisivo na vida espiritual de Marcel foi sua conversão ao catolicismo romano em 23 de março de 1929. Ele escolheu o catolicismo, o qual ele entendia como uma fé universal, econtinuou como um filósofo independente, nunca um teólogo apologista ou porta voz de uma filosofia oficial católica. A Dramaturgia foi outro instrumento significativo de expressão do seu pensamento. Em suas primeiras peças como La Grâce, Le Palais de sable, Le Coeur des autres, e L'Iconoclaste tratavam da espiritualidade autêntica e inautêntica, fidelidade e infidelidade, satisfação e frustração nas relações pessoais. A princípio, "filosofia" significou para Gabriel Marcel apenas um tipo de pensamento sofisticado e abstrato, que buscava transcender o mundo empírico ordinário. Só gradualmente, e durante um longo período de pesquisa e comprovação, ele começou a dar forma a uma filosofia concreta que procurava aprofundar e resgatar a experiência humana íntima. Essa conversão filosófica ocorreu quando estava trabalhando para a Cruz Vermelha Francesa, durante a Primeira Guerra Mundial, tentando encontrar soldados listados como 
desaparecidos. Em lugar da informação nas fichas do arquivo ele passou a ver pessoas reais, apesar de invisíveis - presenças - e a participar da agonia de seus parentes enlutados.  Gabriel Marcel viveu a desolação da Primeira Guerra Mundial e percebeu que: “Apontou um ser de dores alegrias,descobrimentos e decepções, não podendo mais se contentar com as formas abstratas, que até então o satisfaziam. Pois, essa época traz a experiência profunda do mim mesmo.”  Marcel sente a necessidade de falar sobre a interioridade, sobre o ser e a subjetividade: “...viemos depois de outros, dos quais temos recebido muito (...), e que, em relação a outros seres, também viemos antes”.  Marcel constata que o ser em um primeiro momento não se relaciona com o eu, mas com o outro. Muitos já vieram antes de mim, muitos já contribuíram com tantas coisas bem antes de mim. Existe um antes e depois de mim. Isto indica que não sou absoluto nesta relação. Não indica que eu sou melhor e nem pior. Indica um antes e um depois. Hoje recebo e amanhã cederei. Esboça-se o conceito de alteridade. Para Marcel: , “... na medida em que, pela minha própria experiência, me elevar a uma percepção verdadeiramente concreta, estarei em condições de ascender a uma compreensão afetiva do outro, da experiência do outro.” Pela visão metafísica, o ponto de partida é o imaterial para o material. Marcel propõe o contrário: do material para o imaterial. Submerso plenamente pela experiência sensível, posso me elevar na perspectiva do outro. Mas se o ser, em um primeiro momento, se relaciona com o outro, qual é o espaço para a subjetividade? O filósofo responde: “Não me preocupo pelo ser, senão na medida em que tomo consciência, mais ou menos distinta, da unidade subjacente que me une a outros seres, cuja realidade presencio.” O papel da subjetividade se clareia, na medida tomo consciência do outro. Logo, estou diante de uma subjetividade na perspectiva de alguém. Mais: não somente uma subjetividade, mas uma intersubjetividade, já que descubro o eu na relação com o outro. Percebo também que há tanta fragilidade do lado de lá, quanto do lado de cá. Isto implica que sou um ser em trânsito, um ser em relação, que descobre seu eu na relação com o outro. A primeira fonte do 
pensamento de Marcel é sua própria existência. Ele mesmo acentua que se deve ter vivido os problemas filosóficos e pelos mesmos, sofrido: “quem não viveu um problema filosófico, quem não foi oprimido pelo mesmo, não pode, de modo algum, compreender o que este problema significou para os que o viveram de antemão: a este respeito as posições se invertem, e a história da filosofia pressupõe a filosofia e não o inverso. De minha parte inclinar-me-ia a negar a qualidade propriamente filosófica a toda obra em que não se possa discernir o que chamarei a mordida do real. A filosofia concreta nasce não somente de uma tensão criadora, continuamente renovada, entre o eu e as profundezas do ser, da mais estrita e rigorosa reflexão, fundada na experiência vivida até o limite de sua intensidade”. Desde o inicio de seu filosofar, Marcel procura “dar à existência aquela prioridade metafísica que lhe havia tirado o idealismo. Note-se que, entre os pensadores existencialistas, Marcel é o que mais se aproxima de Kierkegaard, embora nada houvesse lido do filosofo dinamarquês, quando desenvolveu suas ideias fundamentais. Embora Gabriel Marcel tenha iniciado sua atividade filosófica sem nada haver lido de Kierkegaard e de Jaspers, segundo sua própria confissão, ocupa, não obstante, uma posição que o aproxima muito de ambos os pensadores. Quanto ao método  Marcel se aproxima de Husserl, ele toma uma situação concreta como as relações entre mim e outro, a representação de uma cena passada  e faz da mesma uma análise fenomelógica aprofundada. Pode-se dizer que um dos pontos básicos do pensamento filosófico de Marcel é a distinção entre Problema e Mistério, sendo que um problema é algo que encontro diante de mim, que posso objetivamente delimitar e reduzir. Um mistério é algo em meu próprio ser, está implicado e comprometido. Diante do problema minha atitude é a de um simples espectador, no Mistério eu mesmo sou o ator. Marcel observa que para o racionalismo, que explica os efeitos pelas causas, tudo no mundo é completamente natural tendendo transformar o Mistério em um Problema, de degradá-lo a simples problema. "Todo o sobrenatural é Mistério, mas nem todo Mistério é sobrenatural". O mistério, segundo Marcel, é algo que está em mim, algo em que eu mesmo me encontro em que estou envolvido, e que, portanto, não pode ser oposto a mim. Ao passar do Problema para o Mistério, supero o alheamento, não havendo mais a distinção entre o em mim e o ante mim, entre o fora e dentro. A distinção entre Ser (être) e Ter (avoir) é fundamental na ontologia de Marcel. É bem verdade, que esta distinção nasce da dupla experiência de meu corpo e do fato de pertencer eu ao mundo onde se encontra os instrumentos de minha existência. Ter diz respeito a coisas que me são 
externas e que de mim não dependem, embora eu seja proprietário das mesmas e possa delas dispor. O  "Ser", para Marcel, é aquilo que oferece resistência a uma analise exaustiva orientada para os dados da experiência, pois do Ser não há experiência alguma. Marcel considera inseparável a existência, a consciência de si como existente e a consciência de si encarnado. Para Marcel, a união da alma com o corpo não é essencialmente distinta da união da alma com as demais coisas existentes: 
afirmar a existência de uma coisa é como afirmar não só que essa coisa pertence ao mesmo sistema que meu corpo, mas que está também, de certo modo, unida a mim como meu corpo. Marcel distingue duas formas de ter: o ter possessivo que só se realiza onde há fora e dentro em recíproca tensão, o segundo é um ter implicativo ou incluso, segundo Marcel, o homem que vive na esfera do problema e do ter só possui opiniões mutáveis. “Toda fé autêntica está enraizada no ser e no mistério”. O indivíduo só se realiza quando reafirma a transcendência de Deus e sua própria condição de criatura de Deus. A fé se converte então no ato ontológico mais significativo.Não existe o problema de Deus, segundo Marcel, isso implica tratar Deus como objeto, como ausente. Não falamos de Deus, mas com Ele. Deus é presença absoluta. Deus só me pode ser dado como presença absoluta na adoração.Para Marcel crer é sentir-se como no interior de Deus. Contudo a relação ao Eu Creio com a divindade, não pode ser pensada, pois trataria o crente como sujeito e a divindade como objeto. Esta relação estaria contida em um ato de fé. Ato que supõe mais do que a subjetividade. O pensar em Deus é encarado como uma relação absolutamente incluída no ato de fé.Deus é o tu absoluto. O outro absoluto. E na fé, agora chamada invocação, eu construo a realidade do meu espírito, a minha realidade do sentir-me sendo no interior da divindade. Diz Marcel: “Eu sou mais quanto mais Deus é para mim. A crença em Deus é um modo de ser e não opinião sobre a existência 
de uma pessoa”. Esta transformação, plenitude que sobrevem à invocação, esta participação no amor é o ser – a forma mais alta da realidade. Este ser fala a linguagem da intimidade, de ser possuído, da plenitude, da saborosa ligação, vínculo, afeto e comunhão.O Deus de Marcel não é objeto susceptível de demonstração objetiva (racionalismo) nem uma mera  função (subjetivismo), mas o “Indemonstrável Absoluto”. O drama da existência humana é um encontro pessoal entre Deus e o eu e alterna entre o sim e o não, entre a fidelidade e a infidelidade, entre o amor e o ódio e ao homem é dado o poder único de decidir, afirmar ou negar. O dilema sempre persiste como a essência de sua liberdade.

Referências bibliográficas:

GIORDANI, Mário Curtis. Iniciação ao Existencialismo. Rio de janeiro, Freitas Bastos, 1976.Gabriel 
Marcel:
ZILLES, U. Gabriel Marcel e o Existencialismo.Porto Alegre: Ed. PUCRS/Acadêmica, 1988.


"Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana , os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem". Jean Paul Sartre.



Karl Jaspers e o existencialismo:

 O pensamento de Jaspers foi influenciado pelo seu conhecimento em psicopatologia e, em parte, pelas doutrinas de Kierkegaard e Nietzsche . Sempre teve interesse em integrar a ciência ao pensamento filosófico na medida em que, para Jaspers, as ciências são por si só insuficientes e necessitam do exame crítico que só pode ser dado pela filosofia. Esta, por sua vez, deve basear-se numa elucidação, a mais completa possível, da existência do homem real, e não da humanidade abstrata. O resultado das reflexões de Jaspers sobre o tema foi a primeira formulação de sua filosofia existencial, o livro "Psicopatologia Geral" foi um grande marco em sua carreira e na evolução da psicopatologia. O existencialismo constitui, segundo Jaspers, o âmbito no qual se dá todo o saber e todo o descobrimento possível. Por isso a filosofia da existência vem a constituir-se numa metafísica . A existência, em qualquer de seus aspectos, é precisamente o contrário de um objeto, pois pode ser definida como o que é para si. O problema central é como pensar a existência sem torná-la objeto. A existência humana é entendida como intimamente vinculada à historicidade e à noção de situação: o existir é um transcender na liberdade , que abre o caminho em meio a um conjunto de situações históricas concretas. Jaspers preocupou-se em estabelecer as relações entre existência e razão , o que o levou a investigar em profundidade o conceito de verdade . Para ele, a verdade não é entendida como característica de nenhum enunciado particular: é antes uma espécie de ambiente que envolve todo o conhecimento.  A forte defesa da filosofia e da liberdade foi uma das marcas do pensamento de Karl Jaspers. Inúmeros os autores  podemos chamar de “filósofos da existência”, desde Nietzsche, Chestov,  Unamuno,  passando por Kierkegaard, Heidegger, Jaspers, Sartre, e Gabriel Marcel entre outros, contudo, falar do existencialismo, implica falar em filosofia da essência,  ou, em termos místicos, de Deus, isto é, implica falar, por um lado, dos que creem nessa mesma essência e, por outro, dos que, à priori, a contestam. De um lado, temos o pensamento existencialista cristão ou religioso; do outro, o pensamento existencialista ateu ou não religioso. O existencialismo cristão ou religioso teve entre seus maiores representantes, os pensadores  Karl Jaspers e Gabriel Marcel, eles refletem, de uma forma geral, as influências do pensamento de Kierkegaard. O existencialismo, no século XX,  acentuou-se em consequência das duas grandes guerras mundiais, esses trágicos acontecimentos originaram uma angústia extrema no homem, era necessário tirá-lo dessa situação de desespero e descobrir uma filosofia mais próxima deste homem dilacerado, ou seja, que coincidisse melhor com a realidade da dramática existência quotidiana.  Karl Jaspers construiu um pensamento onde são retomadas as questões tradicionais da filosofia e lançadas por Kant: o que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar?  
A sua filosofia apresenta-se sob a capa de uma metafísica ou ontologia concreta, pois Jaspers defende que, em qualquer altura da nossa vida, qualquer um de nós se coloca este tipo de questões, o seu pensamento procura exprimir  o “modo de ser” deste homem, ou seja, trata-se de uma filosofia que recupera a visão do homem em todas as suas dimensões, mesmo nas mais espontâneas: “O amor por uma filosofia fundamentante da vida protestava contra essa filosofia científica,  que precisamente se impôs com os seus esforços metódicos e as suas exigências de um pensar severo, e com isso realizou uma obra educativa, mas na sua base era modesta, ingênua e cega para a realidade” (Jasper). O existencialismo afigura-se como uma corrente que procura compreender a realidade na ótica concreta do existente,  para  Jaspers, ela é  a base para construir uma concepção da realidade, sendo o objetivo fundamental o esclarecimento da existência do homem, pois ele não será uma essência definida, mas sim o que escolher ser na concordância com a imprevisibilidade da sua vida. Jaspers reconhece que a vida humana se identifica com as escolhas que o homem fizer, mas, ao contrário de Sartre, a liberdade não é ilimitada, concretiza-se dentro de estritos limites. A existência assume uma característica fundamental  que é o fato de ser única, irrepetível, inacabada, mas representa sempre uma possibilidade para cada um de nós. Estamos sempre em puro devir ou constantemente em contato com o mundo. A existência para Jaspers é a relação dos existentes com o mundo, na medida em que este é o campo onde  a existência se manifesta, sempre no âmbito de uma liberdade limitada pelas próprias circunstâncias e pelo mistério que nos envolve. Segundo Jasper, o homem tem sido estudado pelos diferentes campos científicos, no entanto, estes campos não nos dão a visão de totalidade, apenas o homem fragmentado,  apesar de poder ser objeto de estudo, o homem situa-se no domínio do indescritível. O homem tem a sua existência no mundo, mas os objetos, bem como os outros seres, são sempre "o outro", sendo impossível apreendê-lo e incompreensível no seu todo. Portanto, o indivíduo é inesgotável e dentro do seu próprio mundo não tem limites nas possibilidades de escolha. Não há ciência alguma que o decifre definitivamente mas, por outro lado, o homem só se efetiva como existente quando se interroga pela origem da sua existência. Só através do contato com o ser do mundo que o homem se descobre, na medida em que reconhece a sua liberdade; pois é como se o sujeito se voltasse para si próprio originando um auto-conhecimento. Neste contato com o mundo, aliado à sua própria liberdade, o homem é confrontado com situações-limite que o obrigam a colocar-se perante uma possível transcendência ou Deus: “Assegurada a nossa liberdade, logo um segundo passo se impõe para a nossa auto-apreensão: o homem é o ser relativo a Deus” (Jaspers).
Karl Jaspers considera Deus um aspecto importante na vida dos existentes uma vez que a cada escolha o homem se vê inserido em algo que o sustenta continuamente. A filosofia assume como tarefa a decifração de todos os sinais que Deus dá ao homem. Estes sinais ou "cifras" na linguagem Jasperiana, nunca serão clareados, pois trata-se de uma tarefa interminável. "A divindade nunca será clareada apesar das falsas pretensões da filosofia ao longo dos tempos". Chegamos, portanto, a uma situação em que a transcendência aparece na existência, ela está presente no pensamento mas permanece de algum modo inteligível. "Da existência podemos apenas retirar a sua existência porque eu sou um ser que estou aí, é inegável, enquanto que da transcendência podemos apenas ter uma representação ou um conceito" (Jaspers). Assim, Jaspers defende que todo o esforço para falar do infinito, do transcendente não é uma busca em vão. Não obstante, a linguagem parece estar como que impedida de alcançar certos conteúdos infinitos e temporais, com precisão e clareza, pois implicaria trazer a dimensão da intemporalidade para a temporalidade. Nesta ordem, resta ao homem o reconhecimento dos limites da sua própria linguagem e, em última instância, o silêncio.


Referências bibliográficas:

ABBAGNANO, Nicola, Introdução ao Existencialismo, Preâmbulo e tradução de João 
Alves, Lisboa, Ensaio Editorial Minotauro, s.d.  

JASPERS, Karl, Iniciação Filosófica, 7ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, s.d

Site de referência:
http://www.scielo.oces.mctes.pt

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

"Ser homem é ser livre" Karl Jaspers.


Karl Theodor Jasper:


Karl Theodor Jaspers filho de um banqueiro protestante, nasceu em Oldenburg, na Alemanha em 23 de fevereiro em 1883 e morreu na Basiléia, Suíça, em 1969.Logo que terminou os estudos secundários, Jaspers foi encaminhado pelo pai aos estudos de direito, que ele, porém abandonou depois de três semestres, para estudar medicina. Depois de ter-se formado, em 1909, pela Universidade de Heildeberg, tornou-se assistente voluntário na clínica psiquiátrica da mesma universidade. O trânsito da psiquiatria à metafísica caracteriza já em parte, a atitude de Jaspers, que é, desde logo, uma atitude de insatisfação para com os saberes particulares. Estes saberes não podem dar uma luz suficiente sobre o que verdadeiramente interessa ao homem: a existência humana, sua própria existência.
Sua formação intelectual foi simultaneamente científica e filosófica. Recebeu seu grau de doutor em 1909 e já em 1921 era professor pleno de filosofia em Heildeberg. Perdeu sua cátedra em 1937, da qual foi expulso pelo regime nacional-socialista por razões políticas, voltando em 1945. Karl Jaspers está entre os primeiros pensadores contemporâneos que se apresentaram em público com trabalhos de orientação existencialista. Suas obras mais importantes são:  "Filosofia", "Orientação Filosófica do Mundo",  "Explicação da Existência", " Metafísica"," Razão e Existência"  e  "A Fé Filosófica".
            Os livros de Jasper são distribuídos em 3 diferentes épocas:  1ª: de preparação na qual o ele se inicia nos problemas filosóficos. 2ª: de plenitude em que são expostos e desenvolvidos os diferentes aspectos de seu pensamento. 3ª: de aprofundamento: Jaspers retorna aos temas fundamentais de seu pensamento.
A vida de Jaspers sempre apresentou-se extremamente coerente com o seu pensamento, dentro de suas principais ideias encontra-se a do ser-em-situação, onde diz que o transcender a situação é a verdadeira existência, é o ponto de apoio da existência, o problema do ser está indissoluvelmente ligado ao da verdade, a existência se realiza na solidão do indivíduo,  enquanto a massa é chamada ser-sem-existência; qualquer pretensão de certeza absoluta é uma não-verdade; a mente humana é sempre impulsionada para além dos limites da experiência. Jaspers tenta, como Heidegger, elaborar uma teoria da realidade. A realidade aparece segundo três possibilidades: o existente em geral ou objeto existente; o existente para si, a consciência; e o que é em si e não pode incluir-se nas anteriores possibilidades: a transcendência. Qualquer destes três conceitos da realidade pode ser um ponto de partida para a descrição do ser, mas a descrição completa é impossível. Estas diferentes vias são diversas formas do transcender.  
A primeira forma do transcender centra-se nas coisas existentes, que é o que caracteriza as ciências. A segunda forma do transcender são as situações existenciais, porém, o esclarecimento da existência também não conduz a resultado algum, porque o esclarecimento da existência apela à liberdade.  Para Jaspers, a situação espiritual contemporânea é de crise criada por nós mesmos por meio do conhecimento científico e da vontade de transformar o mundo. Este esforço leva o homem a uma consciência esmagadora da sua impotência. Para Karl Jaspers Deus é visto como um enigma, para fé cristã é o transcendente, pois é subjetivo. Quando fala da fé filosófica, cita que é a fé do homem que pensa, tem sempre uma aliança com o saber, é conhecimento ilimitado, onde a ciência é o elemento fundamental desta filosofia. Quanto às doutrinas existencialistas,  Jaspers dá enfoque especial a transcendência, dizendo que ela  é impossível de ser conhecida ou pensada, que existe, absolutamente, sem qualquer determinação e da qual somente se pode saber que ela é, sem nunca se saber o que ela é, porquanto o único enunciado que dela se pode estabelecer consiste em afirmar: " A transcendência é o que é.

 Site de referência:

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

"Só há mundo onde há linguagem" Heidegger.


" A angustia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana. A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda."  Martin Heidegger .


Martin Heidegger nasceu a 26 de setembro de 1889 em Messkirch, na Schwarzwald (Floresta Negra), Alemanha, e faleceu em 26 de maio de 1976, na mesma Messkirch, então parte da Alemanha Ocidental. Seu pai foi um sacristão católico, incumbido das vestes e dos objetos sagrados, de tocar os sinos e também de cavar as sepulturas no interior do templo. Heidegger mostrou uma preocupação religiosa precoce e teve seu interesse despertado para a filosofia desde os seus estudos básicos, através da leitura do filósofo católico do final do século XIX Franz Brentano. Impressionou-o a psicologia " descritiva ",  como é apresentada no livro "Dos vários significados do Ser de acordo com Aristóteles" de Brentano. Dos seu estudos iniciais de Brentano,  vem também seu entusiasmo pelos gregos, especialmente os pré-Socráticos. Após terminar os estudos básicos, Heidegger entrou para a ordem dos Jesuítas. Como noviço, estudou a Escolástica (filosofia cristã medieval) e a teologia tomista, na universidade de Freiburg.
Por toda sua vida  Heidegger esteve obcecado pela possibilidade de descobrir que há um sentido básico do verbo "ser" escondido atrás de sua variedade de usos. Foi influenciado ainda por diversos filósofos do século 19 e do início do século 20, principalmente pelo pensador católico dinamarquês Søren Kierkegaard e pelos filósofos alemães Friedrich Nietzsche,  Wilhelm Dilthey  e pelo seu mestre e fundador da fenomenologia  Edmund Husserl.  Aos  20 anos, Heidegger estudou  com o filósofo Heinrich Rickert, e com Husserl, que era então já famoso. A fenomenologia de Husserl, e especialmente sua luta contra a inclusão da psicologia nos estudos essenciais do homem, foi a base da sua dissertação de doutorado em 1914. Hiedegger começou a lecionar na universidade de Freiburg durante o semestre acadêmico do inverno de 1915 e ganhou sua habilitação com um estudo do filósofo franciscano escocês falecido John Duns Scotus (1266-1308). Moço ainda e agora um colega de profissão de Husserl, era de esperar que Heidegger levasse o movimento fenomenológico mais longe dentro do espírito de seu mestre, entretanto, de grande vocação religiosa, ele preferiu seu próprio caminho, e em 1927 surpreendeu o mundo filosófico alemão com "Sein und Zeit" "O ser e o tempo". O livro foi aclamado como um trabalho profundo e importante não somente em países de língua germânica mas também nos países latinos, onde a fenomenologia era já bem conhecida. Ele Influenciou, fortemente, Jean-Paul Sartre, na França e outros existencialistas, e, apesar dos protestos de fé do próprio Heidegger, ele foi considerado, por força deste livro, como um líder do existencialismo ateu. Entretanto, entre os intelectuais ingleses, mais avessos aos modismos, sua recepção foi um tanto fria, e sua influência foi insignificante por várias décadas. Em "O ser e o tempo", o propósito declarado de Heidegger é trazer à luz o que significa "ser" para o homem, ou "como é ser". Na ocasião da publicação de "O ser e o tempo", Heidegger era professor "ordinarius" em Marburg onde lecionou por  vários anos desde 1923. Renunciou a esse cargo e, em 1928,  retornou a Freiburg, desta vez como o sucessor de Husserl. Seu discurso de posse na cátedra foi "Was ist Metaphysik?" "Que é Metafísica?" em 1929, no qual elabora um de seus temas favoritos: "Nichts", isto é, "o nada".  No início dos anos 30 ocorreu uma reviravolta no pensamento de Heidegger,  afastando-o do problema do ser e do tempo, nessa época ,   ocorreu também sua adesão ao nazismo, curta, devido certamente apenas ao desenlace desfavorável da guerra, mas nem por isso uma participação menos eloqüente. Sua participação na política cultural do terceiro reich teve início mesmo antes que Adolf Hitler assumisse o poder em novembro 1933. Com o crescimento do partido e sua penetração nos meios intelectuais, as universidades alemãs foram expostas a pesadas pressões. Esperava-se que apoiassem a "revolução nacional" e eliminassem os intelectuais judeus e suas doutrinas (tais como a da relatividade). O reitor em Freiburg, um cientista anti-nazista, renunciou como protesto, e a equipe de professores elegeu unanimemente o engajado Heidegger como seu sucessor. O discurso de posse de Heidegger na reitoria "A auto-afirmação da universidade alemã" foi uma ampla afirmação de Nazismo. Porém, para seus admiradores, ansiosos por livrá-lo, o quanto antes, dos compromissos com a ideologia nazista, Heidegger estava apenas copiando a política educacional autoritária de Platão, e  alegaram que em seu discurso ele, sequer, terminou com um "Heil, Hitler!", mas com uma citação da república de Platão: "Todas as grandes coisas se expõem ao perigo".  Em novembro 1944 Heidegger parou de lecionar, a invasão da Alemanha derrotada pelas potências aliadas tornou difícil a situação dos nazistas mais destacados. Em 1945 ele foi proibido de lecionar oficialmente e suas atividades nazistas foram investigadas. Não foi incriminado em nenhum dos crimes praticados pelos partidários de Hitler e por isso não perdeu seus direitos a uma aposentadoria. Deu, regularmente,  influentes conferências  entre os anos de 1951-58, e continuou um intelectual importante dentro do movimento fenomenológico internacional até seu falecimento em 1976.
 Em toda sua obra, Heidegger evitou termos das ciências sociais ou da psicologia tanto quanto possível, em favor de uma terminologia ontológica. Viu-se então na necessidade de criar uma terminologia nova, palavras novas para exprimir seu pensamento. Foi criticado por desenvolver seu próprio alemão, seu próprio grego, e seu próprio tipo de etimologias. Inventa, por exemplo, aproximadamente 100 palavras novas que terminam com " sendo." Ao ler seus trabalhos é necessário traduzir muitos dos seus termos chaves de volta em palavras gregas a fim de entender suas interpretações e etimologias. Para Heidegger  a existência é dividida em três "estruturas existenciais": afetividade, fala e entendimento. São três fenômenos existenciais que caracterizam como as coisas do passado, do presente e do futuro se manifestem para o homem e a unidade desses três fenômenos constitui a estrutura temporal que faz a existência inteligível, compreensível.
A afetividade é definida pelas "coisas" do passado que chegam ao homem como valores, afetando os sentimentos, que podem ser públicos, compartilhados, e transmissíveis. A fala está  no presente e as "coisas" se traduzem em palavras da linguagem na articulação dos seus significados. O entendimento, que são as "coisas" do futuro, onde o projeto que define o homem encontrará a morte, são as "coisas" não garantidas, que lhe são devolvidas para gerar nele o sentimento de que não está em "casa" neste mundo, mesmo estando entre as "coisas" que lhe são mais familiares.
Portanto, no homem, o ser está relacionado ao tempo e está dado, isto é,  existe nestes três fenômenos, nestes três "existenciais".
 O homem está fora das "coisas", diz Heidegger em "O ser e o tempo", nunca sendo completamente absorvido por elas, mas não obstante não sendo nada, à parte delas. O homem vive, até o fim, em um mundo no qual ele foi jogado, constituindo algo à parte  mas sempre a ponto de ser submergido nas "coisas". O homem é continuamente um projeto, mas, ocasionalmente, ou mesmo normalmente, pode ser submergido nas "coisas" a tal ponto que é absorvido nelas temporariamente. O homem encobre aqueles condicionantes existenciais, aquilo que ele de fato é, entregando-se a uma rotina de superficialidades "públicas" na vida cotidiana. Não é então ninguém em particular, é uma estrutura que Heidegger chama das Man ("o eles "). É a tendência da alienação de si mesmo que leva o homem à tendência de se conhecer apenas através da comparação que faz de si mesmo com os outros indivíduos seus pares. A característica do  "Man" é a conversa inócua  e a curiosidade,  sendo que o que fala e o ouvinte não estão em nenhuma relação pessoal genuína ou em qualquer relação intima com aquilo sobre o que falam, o que, portanto, conduz a superficialidade. A curiosidade é uma forma de distração, uma necessidade para o "novo", uma necessidade para algo "diferente", sem interesse ou capacidade de se maravilhar. Mas algo pode acontecer que desperta o homem dessa alienação, a angústia,  ela resulta da falta de base da existência humana. Para Heidegger,  a "existência" é uma suspensão temporária entre o nascimento e a morte O projeto de vida do homem tem origem no seu passado (em suas experiências) e continuam para o futuro, o qual o homem não pode controlar e onde esse projeto será sempre incompleto, limitado pela morte que não pode evitar.
A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade  como uma potencialidade, elas conscientizam o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo. Na angústia, a relevância do tempo, da finitude da existência humana, é experimentada então como uma liberdade para encontrar-se com sua própria morte, um "estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte. Na angústia, todas as "coisas", todas as entidades em que o homem está mergulhado se afastam, afundando em um "nada e em nenhum lugar",  e o homem, então, em meio às "coisas",  paira isolado, e em nenhuma parte se acha em  "casa".  O homem enfrenta o vazio,  e toda a "rotinidade" desaparece,  isto é bom, uma vez que então encontra a potencialidade de ser de modo autêntico. Assim, a angustia "sóbria"  e a confrontação com a morte, são para Heidegger importantes ferramentas. A ansiedade abre o homem para o ser, e entre as estruturas reveladas estão as potencialidades do homem para ser alegremente ativo: "... conhecer a alegria é uma porta para o eterno".  Isto não quer dizer que o "ser" está irremediavelmente ligado ao desespero, à  angústia,  o "ser" está também associado à luz e à  alegria.  Pensar o "ser" é chegar ao verdadeiro "lar", por isso, dos três existenciais, Heidegger privilegia o futuro, porque é a projeção para o advir e o golpe da devolução no embate com a morte que lá está que leva  o homem a pensar e à autoconscientização. O homem pode então introduzir esse conhecimento existencial no projeto de sua vida, e assim se apropriar da existência fazendo-a efetivamente sua, tornando-se autêntico. 

Site de referência:
http://www.cobra.pages.nom.br/fc-heidegger.html

"És livre, escolhe, ou seja: inventa." Jean-Paul Sartre.



Husserl, fenomenologia e existencialismo:

 Fenomenologia é uma escola da filosofia cujo principal propósito é estudar os fenômenos, ou indícios, da experiência humana enquanto empenho de suspender todas considerações de sua realidade objetiva ou associação subjetiva. Os fenômenos estudados são aqueles experimentados em vários atos da consciência, principalmente atos cognitivos ou perceptivos, mas também em atos como os de avaliação e apreciação estética. A fenomenologia tomou sua forma atual no começo do século XX com os escritos de Edmund Husserl. Husserl pretendeu desenvolver um método filosófico que foi destituído de todos pressupostos e que descreveria os fenômenos enfocando exclusivamente neles, pela exclusão de todas questões de suas origens causais e seu  exterior, o ato de sua própria consciência. Seu objetivo era descobrir as estruturas essenciais e relações dos fenômenos, como também os atos de consciência nos quais os fenômenos apareciam, e, daí, por uma exploração tão fiel quanto possível, estruturada em pressupostos científicos ou culturais. Na concepção original da fenomenologia de Husserl está a idéia de uma ciência sem pressupostos de valor construída para rejeitar todos os compromissos anteriores às teorias do conhecimento, formalmente desenvolvidos como sistemas filosóficos que permeiam nosso pensamento comum (a ‘atitude natural’). Ele tentou, pela suspensão, ou equiparação de extremos compromissos ir além das escolhas usuais de idealismo e realismo, "as próprias coisas". Em seu último trabalho, contudo, Husserl expandiu seu método fenomenológico para incluir o que ele chamou de "redução fenomenológica". Em sua redução, não apenas a opinião alheia, mas também todas as crenças sobre a existência exterior de objetos de consciência estavam equiparadas. Essa suspensão de toda referência à realidade da coisa experimentada deixa o filósofo com nada mais que a experiência própria, que Husserl dividiu em "noesis" (ato de consciência) e o ‘noema" (objeto de consciência).  Existe uma considerável diversidade no uso que os sucessores de Husserl fizeram de seu método. Max Scheler, um primeiro assistente, adaptou-o à experiência religiosa e à ética, e Martin Heidegger, um aluno de Husserl, aplicou seu método às experiências como pavor e medo gerando, desse modo, o que hoje é conhecido como fenomenologia existencial. Os filósofos franceses Jean Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty também empregaram os métodos da fenomenologia em seus projetos, como fez o filósofo alemão Karl Jaspers. Através desses filósofos, especialmente Jaspers, o método fenomenológico influenciou o pensamento psicológico, particularmente certos psiquiatras europeus, como Ludwig Binswanger.   
Os existencialistas diferem amplamente entre eles em muitos pontos filosóficos básicos, mas compartilhavam uma preocupação com a liberdade humana e a responsabilidade pessoal, e insistem na importância da necessidade individual para fazer escolhas.  O existencialismo do século XX é amplamente definido  pela  fenomenologia. Seguindo Husserl e Heidegger, Sartre utilizou o método fenomenológico para defender sua tese central na qual os seres humanos são essencialmente livres, livres para escolher (contudo não-livres para não escolher) e livres para negar as características dadas pelo mundo. Pode-se ser covarde ou desconfiado, mas pode-se sempre resolver mudar. Pode-se ter nascido judeu ou negro, francês ou aleijado; essa é uma questão aberta que cada um fará para si mesmo, se essas serão desvantagens ou vantagens, desafios a serem superados ou desculpas para não fazer nada. Camus emprestou de Heidegger a idéia de ser abandonado pelo mundo, e dividiu com Sartre a idéia de que o mundo não dá sentido aos indivíduos. Visto que Sartre juntou-se a Heidegger na insistência de que se deve construir sentidos para si mesmo, Camus concluiu que o mundo é ‘absurdo’, um termo que foi (erroneamente) utilizado para representar todo pensamento existencialista. Para Sartre, como sempre, o coração do existencialismo não é a tristeza ou a falta de esperança, mas uma renovada confiança no significado do ser humano. Quando Sartre morreu em 1980 o existencialismo (provavelmente) morreu com ele, mas a ênfase existencialista no indivíduo, na pessoa, e a importância na liberdade e responsabilidade continuam a representar um ingrediente essencial no pensamento filosófico.

Site de referência:

http://www.angelfire.com/ma/MarcoSales/

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

"Eu existo, e tudo o que não sou eu, é um mero fenômeno" Husserl.

FENOMENOLOGIA:


Fenomenologia deriva das palavras gregas phainesthai que significa aquilo que se mostra, e logos que significa estudo, sendo etimologicamento então "o estudo do que se mostra". A fenomenologia tem como objeto de estudo o próprio fenômeno, isto é, as coisas em si mesmas e não o que é dito sobre elas, assim sendo a investigação fenomenológica busca a consciência do sujeito através da expressão das suas experiências internas. A fenomenologia busca a interpretação do mundo através da consciência do sujeito formulada com base em suas experiências.
O método fenomenológico consiste em mostrar o que é apresentado e esclarecer este fenômeno. Para a fenomenologia um objeto é como o sujeito o percebe, e tudo tem que ser estudado tal como é para o sujeito e sem interferência de qualquer regra de observação cabendo a abstração da realidade e perda de parte do que é real, pois tendo como objeto de estudo o fenômeno em si, estuda-se, literalmente, o que aparece. Para a fenomenologia um objeto, uma sensação, uma recordação, enfim, tudo tem que ser estudado tal como é para o espectador, ela é, de fato, uma investigação que busca a essência inerente da aparência. Vale ressaltar que o termo aparência assume duas concepções simetricamente opostas. 1- Ato de ocultar a realidade. 2- manifestação ou revelação da mesma realidade. Pelo 2o. significado, a aparência é o que manifesta ou revela a própria realidade, de modo que esta encontra na realidade a sua verdade, a sua revelação. Aparência é qualquer coisa de que se tem consciência. Qualquer coisa que apareça à consciência é uma área legítima da investigação filosófica.Além do mais, aparência é uma manifestação da essência daquilo de que é a aparência.  A Fenomenologia pode ser entendida também como o estudo de vivências. Esses objetos, experiências ou vivências podem ser assim caracterizados:
-Coisas;
-Imagens;
-Fantasias;
-Atos;
-Relações;
-Pensamentos;
-Eventos;
-Memórias;
-Sentimentos;
-Etc.
Partindo deste princípio pode-se dizer que tudo o que envolve a Fenomenologia está relacionado ao chamado processo de Intencionalidade, isto é, tudo parte de uma intenção, de uma vontade, de um desejo, onde é representado por um objeto real, além disso, a fenomenologia nos faz reformular o entendimento a respeito das coisas mais básicas, tais como nossa compreensão de homem e de mundo, orientando o nosso olhar para o fenômeno, ou seja, na relação sujeito-objeto (ser-no mundo). Isso, em última análise, representa o rompimento do clássico conceito sujeito/objeto. Para exemplificar e materializar melhor o conceito de fenomenologia, podemos por exemplo pegar um jarro e um par de calçados, que são compostos de matéria e forma, nos quais o material – o barro e o couro – foram escolhidos em função do uso preciso a que estes utensílios se destinam, Isto significa que a Fenomenologia aborda questões que envolvem além da intencionalidade para qual foi feito (armazenar algo  e proteger os pés), envolve também a sua utilidade, praticidade e especificidade de acordo com a utilização de tal “coisa”, mediante várias possibilidades de interpretações e percepções. Pode-se dizer, então, que a Fenomenologia nada mais é que o fato de usar o conhecimento objetivo, o mundo real, materializado para tentar explicar e resultar numa compreensão mais clara, objetiva e real daquilo que a priori  faz parte da nossa mente, sendo que de acordo com o grau de percepção e contexto histórico de cada indivíduo, aliado à sua total individualidade tem-se como resultado final várias possibilidades de interpretações, intuições, significações e percepções, onde culminarão em apenas um foco,isto é, no objeto em questão que pode ser“qualquer coisa”.  

Site de referência:

filosofianreapucarana.pbworks.com

http://euniverso.com.br/Oque/fenomenologia.htm

referências bibliográficas:

BICUDO, M. A. V. Fenomenologia: confrontos e avanços. São Paulo: Cortez, 2000.
DARTIGUES, A. O que é fenomenologia? São Paulo: Editora Moraes, 1992.
HUSSERL, E. A crise da humanidade européia e a filosofia. Porto Alegre: Edipuers, 1996.
______. A idéia de fenomenologia. Lisboa: Edições 70.

domingo, 8 de janeiro de 2012

“A consciência é consciência de alguma coisa: significa que a transcendência é estrutura constitutiva da consciência" Edmund Husserl.

EDMUND HUSSERL:

Edmund Husserl nasceu em Prossnitz, na Morávia, no antigo Império Austríaco, em 8 de abril de 1859, Judeu de origem rica, completou os primeiros estudos em um ginásio público alemão, na cidade próxima Olmütz (1876),  estudou física,  matemática,  astronomia e filosofia nas universidades de Leipzig,  Berlim e Viena.  Husserl casou-se  com Malvine Steinschneider, passou em um concurso para professor na universidade de Halle e após ensinar também na Universidade de Göttingen, foi nomeado professor titular da Universidade de Freiburg, na Alemanha, onde permaneceu até se aposentar em 1928, continuou morando em Freiburg até falecer em 27 de abril de 1938. Na raiz do pensamento de Husserl encontram-se  influências de Franz Brentano, da escolástica, de  Bernard Bolzano, de  Descartes, de Leibniz, do empirismo inglês e de Immanuel kant. Um dos principais objetivos de Husserl era o de tornar a Filosofia uma ciência de rigor, para isso, a princípio, tenta combinar matemática com a filosofia empírica, seu objetivo com isso seria contribuir no fornecimento de fundações sólidas para as ciências, em especial a matemática. Outro elemento importante nas ideias de Husserl é a noção de intencionalidade, que define a  forma essencial dos processos mentais. Em uma definição simples, a ideia da intencionalidade de Husserl significa que a principal característica da consciência é de ser  consciência de alguma coisa, assim, todo ato mental tem seus conteúdos caracterizados por sua direção a um objeto (objeto intencional), toda crença e todo desejo, por exemplo, tem necessariamente seus objetos  que são o desejado e o acreditado. Alguns anos após a publicação de sua principal obra "Investigações Lógicas",  Husserl elaborou alguns conceitos-chave que o levaram a afirmar que para estudar a estrutura da consciência seria necessário distinguir entre o ato de consciência e o fenômeno ao qual ele é dirigido. O conhecimento das essências seria possível apenas se colocássemos entre parênteses todos os pressupostos relativos à existência de um mundo externo. Este procedimento ele denominou "epoché". Estes novos conceitos deram origem a um novo livro chamado "Idéias" publicado em 1913, a partir desse livro,  Husserl se concentrou nas estruturas ideais, essenciais da consciência, propôs que o mundo dos objetos e os modos nos quais nos dirigimos a eles são normalmente concebidos dentro do que ele denominou “ponto de vista natural”, caracterizado por uma crença de que os objetos existem materialmente e exibem propriedades que vemos como suas emanações. Husserl achava que os filósofos estavam complicando a teoria do conhecimento, em lugar de considerarem com objetividade o fenômeno da consciência como é experimentado pelo homem. O que importava,  para ele  era o que se passava na experiência de consciência, através de uma descrição precisa do fenômeno. Por isso deu o nome de "Fenomenologia" à sua teoria que deveria ser uma ciência puramente descritiva, para somente depois passar para uma teoria transcendental à experiência, o seja,  para além do método cientifico. Husserl propôs um modo fenomenológico radicalmente novo de observar os objetos, examinando de que forma, nós, em nossos diversos modos de ser, intencionalmente nos dirigimos a eles, e, de fato, os “constituimos”. Do ponto de vista Fenomenológico, o objeto deixa de ser algo simplesmente “externo” e passa a ser visto como fonte de indicações sobre o que ele é, torna-se um agrupamento de aspectos perceptivos e funcionais que implicam um ao outro sob a ideia de um objeto particular. A noção de objeto real não é removida pela fenomenologia, mas posta entre parênteses, como um modo pelo qual o levamos em consideração. Para melhor entender o mundo das aparências e objetos, a Fenomenologia busca identificar os aspectos invariáveis da percepção dos objetos e empurra os atributos da realidade para o papel de atributo do que é percebido. Em um período posterior, Husserl começou a se preocupar com as complicadas questões da intersubjetividade, e experimentou novos métodos para fazer entender, aos seus leitores, a importância da Fenomenologia para a investigação científica, especificamente para a psicologia, e o que significa “pôr entre parênteses” a atitude natural. "A Crise das Ciências Européias" foi o livro inacabado de Husserl que lida mais diretamente com estas questões, nele, Husserl pela primeira vez busca um panorama histórico do desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência, enfatizando os desafios apresentados pela sua crescente orientação empírica e naturalista. Husserl declara que a mente  possui sua própria realidade, independente de qualquer base física. Como resultado da legislação anti-semita aprovada pelos nazistas em abril de 1933, foi negado ao Professor Edmund Husserl o acesso à biblioteca de Freiburg. Seu antigo pupilo e membro do partido nazista, Martin Heidegger, comunicou a sua demissão junto às pesquisas existencialistas e afastou-se do mestre, além disso,  retirou a dedicatória que fez à Husserl em seu mais conhecido trabalho "Ser e Tempo", quando este foi reeditado em 1941. Em 1939, os manuscritos de Husserl, que somavam aproximadamente 40.000 páginas e sua pesquisa bibliográfica completa foi clandestinamente transportada para a Bélgica e depositada em Leuven onde foram criados os Husserl-Archives.