sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

dentro de nós há algo que não conseguimos nomear, isso é o que somos. José Saramago.


"Tento, há tantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível... sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que sentir o original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio meu irmão das palavras que já sabes um vocabulário para esse alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já estava escrito... Eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face... E outra vez me deslumbra, em alarme, a presença iluminada de mi  a mim próprio, o eco longínquo das vozes que me trespassam. Como é difícil, miraculoso, pensá-lo. Quanta coisa aprendi e sei e está aí a minha disposição quando dela preciso. Mas esta simples verdade de que estou vivo, me habito em evidência, me sinto com absoluto divino, esta certeza fulgurante de que ilumino o mundo, de que há uma força que me vem de dentro, me implanta na vida necessariamente, esta totalização de mim a mim próprio que me não deixa ver os meus olhos, pensar o meu pensamento, porque ela é esses meus olhos e esses meus pensamentos, esta verdade que me queima quando vejo o absurdo da morte, se pretendo segurá-la em minhas mãos, revê-las nas horas de esquecimento, foge-me como fumo, deixa-me embrutecido, raivoso de suspense e ridículo... E, todavia, sei-o hoje, só há um problema para a vida, que é o de saber, saber a minha condição, e de restaurar a partir daí a plenitude e a autenticidade de tudo - da alegria, do heroísmo, da amargura, de cada gesto. Ah, ter a evidência ácida do milagre que sou, de como infinitamente é necessário que eu esteja vivo, e ver depois, em fulgor, que tenho que morrer. A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei - não do olhar dos outros. Os astros, a Terra, esta sala, são uma realidade, existem, mas é através de mim que se instalam na vida: a minha morte é o nada de tudo. como é possível? Conheço-me o  deus que recriou o mundo, o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias, realizei em mim um prodígio de invenções, descobertas, que só eu sei, recriei à minha imagem tanta coisa bela e inverosímel. E este mundo complexo, amealhado com suor, com o sangue que me aquece, um dia, um dia - eu sei até à vertigem - será o nada absoluto, dos astros mortos, do silêncio. Mas tudo isto é quase falso, é quase estúpido só de estar a pensá-lo, a dizê-lo, porque a sua evidência é um milagre instantâneo.

Início do livro "Aparição" de Vergílio Ferreira, páginas 7, 8 e 9.

domingo, 23 de setembro de 2012

ser homens "até mais não..." E sê lo na esquálida razão de o ser.



José Antunes de Sousa é licenciado, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor do Instituto Superior de Estudos Interculturais e Transdisciplinares do Instituto Piaget de Almada.



Estudioso da obra de Vergílio Ferreira publicou A Questão Ética em Vergílio Ferreira (2006) e Vergílio Ferreira e a Filosofia da sua obra Literária (2009). Neste seu último livro, reflecte sobre o lugar do pensamento na criação literária, destacando as relações da literatura e da filosofia, do conhecimento e da linguagem. Em 2008 foi co-editor das actas do colóquio Vergílio Ferreira no Cinquentenário de Manhã Submersa, realizado na Universidade Católica de Lisboa em 2004.

Vergílio Ferreira e a Filosofia da sua Obra Literária:

O dizer eminentemente poético que, na prosa de Vergílio Ferreira, se diz, insinua-se nos a partir da secreta instância do tudo por dizer que nesse dizer se oculta.As suas obras, que são uma só, a romanesca, a ensaística e até mesmo a diarística, formam um quiasma vivo (o desprezo que Vergílio nutria pelas "verdades indiferentes"!), sempre naquela balbuciação em sangue de um valor que definitivamente nos pacificasse a alma.Nessa busca ansiosa de um além que importaria, além de tudo, o fosse já cá, nesta vida, e que é o valor absoluto, Vergílio Ferreira desdobra se num balanço doloroso entre o irrecusável do "homem fundamental" e o mísero destino que o espera na escuridão opaca do túmulo. E vai reclamando das estrelas um desígnio que sabe estar destinado a dissipar se na terra.A extensa obra de Vergílio Ferreira não cessa de nos alarmar com imprevistas fosforescências, não raro cintilantes, de sentido, um sentido que se faz da dramática consciência do excesso que nos constitui, mas que, afinal, é "tanto para nada". E um intersticial vislumbre de um futuro que nos contrariasse neste nosso clamor de nada eis que percorre, apofaticamente, toda a obra vergiliana cujos heróis, inchados de augúrio e de promessa, acabam por soçobrar, vítimas da "Sem Razão" da "Grande Ordem", sob o peso, enfim, de um destino à medida da "barriga das minhocas".Mas, no fim de tudo, que é, paradoxalmente, um final que se sente desde o início, subsiste em tudo o que por Vergílio foi dito um doce mas inquieto travo de insubmissão e de uma ínvia esperança, por entre o tumulto do incessante e estrénuo caminhar. Porque não nos aguarda a placidez serena da chegada, mas essa infinda sucessão de pontos de partida impõe se nos apenas isto: ser homens "até mais não..." E sê lo na esquálida razão de o ser.

http://www.wook.pt/

Integrado no "Colóquio Internacional Vergílio Ferreira" no cinquentenário de Manhã Submersa: filosofia e Literatura, realizado em Março último na Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), onde foram apresentadas comunicações importantes de Robert Bréchon, Eduardo Lourenço, Luís Mourão, Helder Godinho, José Esteves Pereira, Fernanda Irene Fonseca, Rosa Maria Goulart, entre outras, foi lançado o livro de José Antunes de Sousa Vergílio Ferreira e a Filosofia da sua Obra Literária, em que pela primeira vez se estuda em profundidade o sentido filosófico da ficção do autor de Para Sempre. Doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e professor do Instituto Piaget, José Antunes de Sousa é hoje investigador do Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira na mesma Universidade e colabora com regularidade em revistas e jornais. Ao abordar a filosofia na obra literária de Vergílio Ferreira, nas vertentes mais essenciais do que a fundamenta, o autor não deixa de fazer incidir o seu estudo nos aspectos e limites de uma obra que é posta em paralelo com outros autores portugueses, ao mesmo tempo que destaca as relações da literatura e da filosofia, da ética e do materialismo metafísico, do humanismo e de Deus, do conhecimento e da linguagem que aparecem estudadas em profundidade e com grande rigor filosófico. De facto, trata--se de um primeiro e essencial estudo da obra vergiliana na perspectiva da filosofia, onde se não esquecem os conceitos de sujeito e linguagem, Deus e divindade, tempo e temporalidade, os mitos do Transcendente, ou ainda o sentido da fala e da escrita, da linguagem e o mundo que em Vergílio Ferreira, como é demasiado eviente nos seus ensaios e anotações de diário, ganham um espaço de eleição ou de preferência nas questões que sempre soube inquirir ou abordar. Por isso, este estudo do Prof. José Antunes de Sousa é realmente denso e exaustivo ao longo de quinhentas páginas e afirma-se, sem dúvida, como um excepcional contributo para o melhor conhecimento da obra literária de Vergílio Ferreira. E é isso que ressalta, na evidência dos valores defendidos pelo prof. José Antunes de Sousa neste admirável estudo ao ter sabido colocar em destaque, com grande rigor de interpretação, os conceitos e mitos que consubstanciam a obra vergiliana - sinfonia em louvor da vida e desde sempre saber, como diz em Invocação ao Meu Corpo, que "o que existe para o homem é o absoluto da sua hora e tudo o que para lá existe, existe apenas coordenado com ela, a ela subordinado".E, na atitude de tudo globalizar na ficção ou ensaísmo literário, se poder encontrar uma "explicação" para o que é do homem mais essencial, porque toda a obra se define dentro de coordenadas que, na aceitação ou recusa dos valores mais autênticos, Vergílio Ferreira exigiu que a sua coerência intelectual se afirmasse através de um itinerário tão próprio e de excepção na moderna literatura portuguesa, sem se desviar dessa posição inconfundível de quem encarou a literatura como o acto maior e único de estar vivo.

http://www.apagina.pt

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Existencialismo segundo Vergílio Ferreira.



"Esforço inútil é conceber vastas obras. Mais vale partir do princípio de que elas existem e escrever-lhes breves comentários." Jorge Luís Borges.


O Existencialismo segundo Vergílio Ferreira    

 "O existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer.       Possivelmente gostaríeis ou teríeis curiosidade de me ouvir falar de mim, já que vou sendo insensivelmente investido na qualidade de uma espécie de delegado nacional ou regional do Existencialismo. Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automaticamente obriga a aceitar-lhe todas as consequências, entre as quais a de nos responsabilizarmos por tudo quanto sob este rótulo se disser ou fizer.       Por mim, preferia definir o Existencialismo como a corrente de pensamento que, regressada ao existente humano, a ele privilegia e dele parte para todo o ulterior questionar. Ou então - e paralelamente ou implicitamente a essa definição - preferiria dizer, continuando Sartre, aliás, que o Existencialismo é uma corrente do pensamento que reabsorve no próprio "eu" de cada um toda e qualquer problemática e a revê através do seu raciocinar pessoal ou preferentemente da sua profunda vivência. Aí se implica portanto que nenhum questionar se estabelece em abstracto, de fora para dentro, mas antes se retoma a partir da nossa dimensão original, ou seja, verdadeiramente, de dentro para fora." 

F. Vergílio, Espaço Invisível II 

sábado, 4 de agosto de 2012

Não penses...





Não Penses:
Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe» com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio. 
Vergílio Ferreira, in "Conta-corrente - nova série - 2"

domingo, 22 de julho de 2012

Vive o Dia de Hoje!




Vive o Dia de Hoje!

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro. 

Vergílio Ferreira, in "Escrever"

Breve Explicação do Sentido da Vida!




Breve Explicação do Sentido da Vida!

Como exprimir em duas linhas o que venho tentando explicar já não sei em quantos livros? A vida é um valor desconcertante pelo contraste entre o prodígio que é e a sua nula significação. Toda a «filosofia da vida» tem de aspirar à mútua integração destes contrários. Com uma transcendência divina, a integração era fácil. Mas mais difícil do que o absurdo em que nos movemos seria justamente essa transcendência. Há várias formas de resolver tal absurdo, sendo a mais fácil precisamente a mais estúpida, que é a de ignorá-lo. Mas se é a vida que ao fim e ao cabo resolve todos os problemas insolúveis - às vezes ou normalmente, pelo seu abandono - nós podemos dar uma ajuda. Ora uma ajuda eficaz é enfrentá-lo e debatê-lo até o gastar... Porque tudo se gasta: a música mais bela ou a dor mais profunda. Que pode ficar-nos para já de um desgaste que promovemos e ainda não operamos? Não vejo que possa ser outra coisa além da aceitação, não em plenitude - que a não há ainda - mas em resignação. Filosofia da velhice, dir-se-á. Com a diferença, porém, de que a velhice quer repouso e nós ainda nos movemos bastante. 

Vergílio Ferreira, in "Um Escritor Apresenta-se"

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A verdade é amor...



A verdade é amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista. Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em. razão ou mesmo em inteligência. Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. E só o consente, se o amar.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Cartas a Sandra.





"(...) O amor é tão monótono, querida. Porque ele é o cimo sensível de uma imensidade de coisas que se esqueceram. Como falar desse mínimo que é o vértice de todo um mundo que o sustenta? Falar de nada, que é o todo nele? Sandra. Podia dizer o teu nome infinitamente na multiplicação do que nele me ressoa. E é assim o que mais me apetece, dizê-lo dizê-lo. E ouvir nele o maravilhoso que me abala todo o ser. Poderia escrever o teu nome ao longo do que escrevo e teria talvez dito tudo. Mas eu quero desse tudo dizer também o que aí se oculta. Dizer o meu enlevo e a razão de ele me existir. As tuas mãos nas minhas. O incrível miraculoso de eu dizer o teu rosto. O ardor de um meu dedo na tua pele. Na tua boca. O terrível dos meus dedos nos teus cabelos. O prazer horrível até à morte da minha entrada no teu corpo."

Um pequeno romance composto essencialmente por dez cartas de amor, "Cartas a Sandra" representa um epílogo ao romance "Para Sempre", do mesmo autor. O ideal do amor, já sobejamento dissecado em "Para Sempre", é neste romance ainda mais sublimado em cartas escritas por Paulo à sua amada após a sua morte. A catarse de um amor inesgotável, descrito das mais variadas formas, um amor tão forte que todas as palavras não o conseguem circunscrever e onde a dimensão metafísica desempenha um papel apaziguador no desespero obsessivo de Paulo na evocação da memória de Sandra. Num estilo sóbrio embora angustiado, sem recorrer a frases ou expressões corriqueiras próprias de adolescentes nas suas mensagens de amor, Vergílio Ferreira explora a fundo a capacidade de amar do ser humano levada ao extremo, traduzida num viver perto da loucura, num desespero sereno de evocações comoventes enfatizadas numa dignidade de pensamentos filosóficos que transcendem em todo o seu esplendor metafísico a figura do amor elevado ao purismo do sentimento e à degradação da sua carne, numa fuga rumo à eternidade que é o expoente de todo o amor. 

http://www.citador.pt


Paulo passa os últimos dias da sua velhice escrevendo cartas a Sandra, esposa há muito falecida, recordando a sua vida em comum bem como a sua relação com Xana, a filha que muito cedo abandonou a casa da família. Trata-se do testemunho pungente, mesmo desesperado de um homem apaixonado a quem faltou vida para desafiar a morte da mulher amada. Para Paulo o tempo estacionara na morte de Sandra. No entanto, o amor perdurou para lá da sua morte, como um espinho cravado no seu coração. À procura de paz na memória de Sandra, Paulo encontra mais e mais sofrimento. Essa memória é sempre incompleta porque é por Sandra, por toda ela que Paulo clama. Pelo seu espírito, pelo seu amor mas também pelo seu corpo e pela sua vida. Assim, o tom melancólico, por vezes quase tenebroso, destas cartas constitui a imagem acabada da solidão; uma imensa solidão. Cartas a Sandra constitui, por outro lado, um documento importantíssimo para compreender a personalidade do autor, na sequência do romance auto-biográfico Para Sempre. Assinadas por Paulo, elas são o retrato de uma vida sofrida pela perda dos pais na infância, os anos promissores da universidade, na idade de todas as esperanças, mas também, mais tarde, o abandono por parte da filha, Xana, e a morte trágica de Sandra. Restou uma imensa solidão que marcou os seus últimos dias. Depois de tudo (da morte até) restou o amor; mas um amor sofrido e excessivo: “havia em ti divindade bastante para estar certo o que me doesse”…

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Na tua Face.





"Estávamos cheios de imensas coisas em suspenso e havia um leve murmúrio do rio só de vê-lo correr. Devia haver um grande silêncio no Mundo porque nos ouviamos ser"


" Todo o homem só ama a mulher que não existe. E bom é isso. Porque se ela existisse, o amor deixava de existir. Mesmo que ele a ame como supõe. Porque todo o amor só existe nos intervalos de a pessoa amada existir. Fora desses intervalos não existe."

"Então olhei-a em deslumbramento e terror no intocável do seu ser. Queria ver-lhe os olhos verdadeiros e a boca e a face, mas não estavam lá. Porque eram só uma aparição difusa incontornável como a luz do ar que não se via e era só iluminação. (…) Via-lhe a face mas só no impossível como lha vejo agora."

"E imprevistamente era aí que eu repousava, na tua face, na imagem final do meu desassossego."

 Daniel conhece Bárbara que exerce nele um extraordinário fascínio, mas casa com Ângela que não ama (ou que ama de outra forma) e continua, pela sua vida fora, convivendo através da memória com o amor impossível que sente por Bárbara, em lembranças que vêm por si, sem que ele as chame.  Tudo nesse amor evocado por Daniel é duplo: Ângela e Bárbara são duas faces da mesma moeda que o acompanharão sempre. Ângela será a presença constante na conjugalidade partilhada da casa, dos filhos, das férias, mas também das leituras, das conversas, dos momentos de dor e silêncio… Bárbara será o objecto da evocação obsessiva; manter-se-á presente na memória de um breve instante, no eco de um chamamento, como manifestação de plenitude, de perfeição, de eternidade, a face que se vê, mas só no impossível. Ângela é o corpo, Bárbara a aparição.

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domingo, 15 de julho de 2012

"Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar." Friedrich Nietzsche.



“Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe. (…)Bati palmas, elas ressoaram pelo espaço do Olimpo. Não fui bem eu que as bati mas o duplo de mim, não te sei explicar. As palmas foram à frente e eu já não as pude apanhar. Porque o homem, minha querida, tem sempre em si um outro de si e só num tarado é que os dois coincidem. Também não sabia bem porque o fiz, agora sei. Claro, havia a destreza, a perfeição da tua realização, mas agora sei que havia outra coisa. Queria dizer-te simplesmente que havia o teu corpo, mas não chega. Havia outra coisa – que coisa? Mónica, minha querida. Havia, deixa-me pensar. Ah, poder falar do teu corpo. Perder o pé da realidade. Fechar à volta uma cortina para que nada de ti me fugisse e ficar eu só diante de ti. Sinto agora alguém dentro de mim a perguntar e depois? que é que aconteceu? Sei lá o que aconteceu, quero lá saber. Quero é estar contigo no nada do tudo o que acontecer. Saturar-me da tua presença. E ver-te. E ver-te. Que importa o que "acontece"?”



Ferreira, Vergílio, Em Nome da Terra, 10.ª edição, Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 28 – 29

Em nome da Terra.





"Tenho nas mãos a memória do teu corpo, do boleado doce do teu corpo. As pernas, os seios, deixa-me encher as mãos outra vez. O fio ardente da tua pele. A face. Mal te vejo os olhos, mas o teu olhar cai sobre mim em torrente. Despi-me brusco, deitados os dois na areia, e a fúria, e o limite. E uma só verdade para nós e o universo. Deitados de costas, lemos as estrelas. A paz enorme de horizonte a horizonte. A eternidade. E a necessidade de estarmos lá, para não haver mais nada para fora de nós. Depois erguemo-nos, mergulhámos nas águas."

"Quero é aproveitar o tempo, eu que estou em mim para estar todo no que te digo. Uma vontade absoluta de te amar, que o  absoluto é a medida humana, é assim. Atravessei o horror e a humilhação. Atravessei a miséria e o que nela apodreceu do meu corpo terrestre. Lembro-te, penso-me. Está uma noite quente, deve ser o fim do verão. Lembro-te agora intensamente e a tua perfeição está no fim do meu lembrar. Esta-se lá bem, no lembrar."

"Mas de repente começa-me a chover na memória. Não me perguntes porquê ."


João, personagem principal, viúvo, decide viver os últimos anos de vida num Lar, doando todos os seus bens à sua filha Márcia. Para si, guardou apenas, a memória, um Cristo mutilado, um desenho de Dürer, uma reprodução de um fresco de Pompeia e um disco de Mozart - concerto para oboé. Estes símbolos percorrerão a narrativa, estabelecendo uma relação analógica com o corpo, a morte, o esplendor e a beleza. Temporalmente situado no tempo "último" do narrador, este romance constitui-se como um bonito mas doloroso louvor ao amor e ao seu objeto - a sua mulher Mónica, já falecida. Através de um diálogo sem resposta, profundamente intimista, João dirige-se a um "Tu" fisicamente ausente, Mónica, de cujas lembranças se vai alimentando. 





http://www.infopedia.pt/em-nome-da-terra



   



Até ao fim...




O protagonista, Cláudio, relata-nos a trágica história da sua vida de casal com Flora e o seu jovem filho Miguel, que mais tarde se revela viciado em droga e morre num tiroteio em uma operação policial. Entendendo o ser como parte integrante de uma ordem universal, aceitando a condição humana limitada mas ao mesmo tempo desejando o infinito ou a imortalidade.

"Eu disse que o sentir era hipócrita? Não é verdade. É o que está mais próximo do ser. (...) Mas só as palavras o esclarecem, só nelas o sentir é verdade assumida. Gosto de me assumir em tudo o que sou."

"Sentia-me violentamente ofendido, mas não o mostrava. Porque sentirmo-nos ofendidos é afirmarmos a eficácia de quem nos ofende. Só o podemos mostrar quando a nossa dignidade está em causa. Mas só o está quando a importância do outro é inegável"

"A dor dói sempre o mesmo, a diferença está em nós"

http://oquemefazcorrer.blogspot.com.br

O monólogo de um pai durante o velório do filho. Um homem passa a noite numa capela sobre o mar a velar o corpo do filho, um jovem adulto, deliquente e toxicodependente. Durante essas horas, vai contando na primeira pessoa a história da sua vida e dirige-se ao filho morto.

Até Ao Fim é um romance de sofrimento pautado pelo constante negativismo. Na sua essência, a história é simples - um jornalista vê o filho perder-se no mundo das drogas ao mesmo tempo que tenta encontrar sentido em sua vida romântica passada. Cláudio, personagem principal, é um homem envelhecido por uma vida desgastante e faz a sua intensa reflexão na noite em que o filho Miguel  morre. Sem força para guiar  sua vida até agora, é no fatídico amanhecer que algum sentido é capturado por Cláudio, sendo que "a vida toda dentro dele" é um pensamento conclusivo das rédeas do seu destino. 

http://www.goodreads.com/book/show/9357950-at-ao-fim

Nesta obra, o autor parece entender o ser como parte integrante de uma ordem universal, e a condição humana é abordada sob dois aspectos metafísicos essenciais: a limitação( morte ) e desejo de infinito( imortalidade ).

http://pt.shvoong.com/books/romance

sábado, 14 de julho de 2012

Para Sempre...




Nasce-se todo inteiro, mas morre-se apenas a parcela do todo que nos foi morrendo ao longo da vida e nos tinha em pé. Por isso a morte mais natural de um velho é cair para o lado.

Não te entristeças por não poderes já ver o que verão os que vierem depois de ti. Porque depois de mortos, terão visto exactamente o mesmo que tu.

Vir a morte e levar-nos. E não fazermos falta a ninguém. Nem a nós. Que outra vida mais perfeita?.

Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim.

Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha.

Não poderás vencer a morte. Mas impõe-lhe a vida como um bandarilheiro e verás que muitas vezes ela marra no vazio.

Os grandes sistemas do pensar, da ciência, as grandes correntes literárias e artísticas, os grandes ideários políticos ou religiosos. Tudo passou. Restos detritos fragmentos. Toma o teu bocado e senta-te no vão de uma porta a comê-lo.

Vergílio Ferreira

Paulo é um homem só. Na fase final da sua vida recorda Sandra, a mulher que amou. Sandra morrera de cancro. Recorda Xana, a filha que foi morrendo no abismo da droga. A mãe que morrera na sua infância; as tias o padre que o atormentaram com uma religião beata que nunca respondeu aos seus pedidos de misericórdia. Memórias que flutuam no rio estéril da memória…A melancolia de um tempo que chega ao fim, um tempo que pareceu eterno nas promessas de que é feita a vida, mas que desemboca inexoravelmente na solidão, no pessimismo, na visão negra da vida. Neste livro, Paulo aguarda a morte numa imensa introspecção onde os tempos múltiplos da vida são revistos com mágoa, com o sofrimento que só a linguagem poética de Vergílio Ferreira consegue exprimir. A morte com que se inicia o livro é a mesma, negra e impiedosa com que ele termina; a morte que está em todos os cantos da vida… a morte, esse fantasma permanente…Para Sempre é um livro de mágoas; um livro pessimista, negro, macabro; um livro sobre a vida, sobre a necessidade de a pensar mesmo que no fim dos tempos, no momento em que nada mais o pensamento poderá mudar. Mas é também um livro sobre a morte como redenção; como o remédio único e fatal para o sofrimento; para a culpa e a podridão; para a vida. A morte como o fim desse sofrimento prolongado a que Paulo chama vida. É um livro difícil de ler; não que a linguagem nos atrapalhe; não que o enredo seja emaranhado ou confuso. Não… é difícil de ler porque dói. Faz doer. O sofrimento que sai da caneta de Vergílio atravessa as páginas e vem de encontro ao leitor, apanhando-o desprevenido. E vai directamente à alma de quem lê, sem piedade. Nas letras, palavras e frases vê-se a dor; sentem-se as lágrimas; encaixa-se os socos da revolta.  Vemos Paulo e verificamos que podíamos ser nós. Vemos Paulo e não temos pena; sofremos com ele; temos pena de nós. Não lamentamos a vida de Paulo; lamentamos a vida.

http://aminhaestante.blogspot.com.br/2011/02/para-sempre-vergilio-ferreira.html

No final de uma vida, entrando no seu epílogo, um homem já sem destino para cumprir medita sobre o seu passado e o seu futuro, no regresso a uma casa vazia onde passou parte da sua infância, povoada de fantasmas que evocam os momentos chave da sua existência. Recheado de flash-backs para o passado e para o futuro, a antevisão, real e com todos os detalhes, da degradação da sua velhice e do seu funeral. Inicia-se, em Paulo, a derradeira tentativa de procura da explicação de um sentido para a vida. Nesta narrativa de evocações aleatórias, centrada no romance de Paulo com Sandra, mulher difícil e de poucos sentimentalismos, último alicerce num mundo de ilusões. Vítima do seu próprio pensamento,  questionando a sua condição humana e a dos outros, comparando-a até ao fim dos tempos, um lamento arrastado mas pontuado por algumas fagulhas de lucidez e outras de felicidade passada e presente, onde persistem ainda mais perguntas que respostas. A paz nunca chega, para sempre continua a percepção do abismo entre aquilo que se é e aquilo que se sente.

http://www.citador.pt

ferreira, Vergílio- Para Sempre. Lisboa: Bertrand [1987].

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Signo Sinal.




Apague as pegadas:


Cuide, quando pensar em morrer
 Para que não haja sepultura revelando onde jaz,
Com uma clara inscrição a lhe denunciar
 E o ano da sua morte a lhe entregar,
 Mais uma vez: Apague as pegadas!

 Bertold Brecht

"E, com efeito, as obras recomeçaram. Outra vez os operários regressavam dos subsídios de desemprego e dos retroactivos salariais, o comércio reanimou, havia putas novas vindas de fora. E imediatamente pás, picaretas e escavadoras, os cilindros de terraplenagem, uma grande rede de trincheiras foi-se abrindo para os alicerces. Um homem desconhecido, vestido de bruto, botas ferradas, um fato grosso, eu via-o com papéis na mão, ia de grupo em grupo dar instruções. Punha-me a olhar o emaranhado das valas, a imaginar a aldeia recostruída e as distâncias e o jogo possível das relações humanas. Imaginava as ruas, as casas reerguidas, o reencontro dos homens consigo, com os seus sonhos e esperanças e enredos e conflitos, o envelhicimento das coisas pelos séculos e a nova ordenação da vida sob a eternidade dos céus."
 Signo Sinal.


Em pleno tempo de pós-revolução (25 de Abril), uma aldeia é quase inteiramente devastada por um terramoto. Um dos seus muitos sobreviventes, herdeiro de uma pequena fábrica erguida pelo seu falecido pai, sem qualquer vocação para nada de prático na vida, sempre dado às letras e à reflexão, constata o absurdo da condição humana e da inútil tentativa entusiástica da mudança do estado das coisas. Uma aldeia em ruínas e um planejamento que não se concretiza nunca, o narrador segue contando pequenas histórias de uma época de vida coletiva e experiência compartilhada, que faz contraste com o mundo moderno, a perda da memória e a vida esvaziada de sentido. O que se percebe em Signo Sinal é uma crítica à modernidade que promete o progresso e entrega devastação. O que restou da antiga aldeia foi somente uma  terra rasa de ruínas. Em torno do narrador de  Signo Sinal, um dos sobreviventes, apenas as ruínas das casas e dos habitantes. É neste cenário que Luís começa a por sua memória em movimento. São os mortos da sua lembrança que retornam, são vestígios de um passado recente. A aldeia, os moradores e a memória estão soterrados pelo terremoto chamado progresso.



FERREIRA, Vergílio. Signo Sinal. Lisboa, Bertrand, 1990.
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